terça-feira, 22 de outubro de 2019

De Hong Kong ao Chile, o que há em comum na nova onda de protestos em escala global



Três fotos de manifestantes no Chile, Hong Kong e LíbanoDireito de imagemAFP/GETTY/REUTERS
Image captionProtestos no Chile, em Hong Kong e no Líbano
Nas últimas semanas, o mundo assistiu à escalada de uma onda de protestos indo de Hong Kong ao Chile, passando por Líbano, Equador e outros países.
Eles são diferentes — com causas, métodos e objetivos distintos —, mas existem temas comuns que os conectam.
Com milhares de quilômetros de distância entre eles, os protestos começaram por razões semelhantes em vários locais, e alguns se inspiraram em outros em relação a como organizar e promover seus objetivos.
A seguir, a reportagem aponta os principais temas que estão em jogo e o que eles têm em comum.

Desigualdade

Muitos dos que protestam são pessoas que há muito tempo se sentem excluídas da riqueza de seu país. Em vários casos, um aumento em preços de serviços básicos foi a gota d'água.
No Equador, as manifestações começaram quando o governo decidiu eliminar os subsídios a combustíveis para conter o déficit fiscal. As medidas de austeridade foram implementadas pelo presidente Lenín Moreno com apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI).
A mudança levou a um forte aumento nos preços da gasolina, que muitos disseram que não podiam pagar. Os grupos indígenas temiam que a medida resultasse em aumento dos custos de transporte público e da alimentação, e disseram que as comunidades rurais seriam as mais atingidas.
Os manifestantes bloquearam estradas, invadiram o Parlamento e entraram em conflito com as forças de segurança, exigindo o fim das medidas de austeridade e o retorno dos subsídios aos combustíveis. Para colocar fim nos protestos, o governo recuou após dias de manifestações.
Protestos em Quito: incêndios e confrontos
No Chile, foi uma alta nos preços dos transportes que provocou protestos. O governo disse que os custos mais altos de energia e uma moeda mais fraca levaram à decisão de aumentar as tarifas de ônibus e metrô. Os manifestantes, no entanto, disseram que a medida foi mais uma a pressionar a população mais pobre.
Quando os manifestantes entraram em conflito com as forças de segurança na noite de sexta-feira (18/10), o presidente Sebastián Piñera foi fotografado jantando em um restaurante italiano de luxo — um sinal, disseram alguns, do abismo entre a elite política do Chile e as pessoas que estavam nas ruas.
O Chile é um dos países mais ricos da América Latina, mas também um dos mais desiguais — tem os piores níveis de igualdade de renda entre os 36 países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com o mesmo índice do México.

Desigualdade de renda

Chile e México ocupam pior lugar entre países da OCDE em ranking de desigualdade
*Compara proporções cumulativas da população com proporções acumuladas da renda que recebem. Gráfico mostra alguns dos mais de 30 membros da OCDE.
Fonte: OCDE
Presentational white space
Como ocorreu no Equador, o governo do Chile recuou e suspendeu o aumento de preço, em um esforço para reprimir os protestos. No entanto, as manifestações continuaram e cresceram, com queixas mais amplas.
"Não se trata de um simples protesto contra o aumento das tarifas de metrô, mas de anos de opressão que atingiram principalmente os mais pobres", disse à Reuters um estudante que participou dos atos.
O Líbano passou por um movimento semelhante. A decisão de taxar as chamadas feitas por meio do WhatsApp provocou protestos, que também se tornaram mais amplos e passaram a reclamar de problemas econômicos, desigualdade e corrupção.
Manifestantes participam de um protesto contra o governo na cidade de Tiro, sul do Líbano, em 21 de outubro de 2019.Direito de imagemREUTERS
Image captionManifestantes no Líbano protestaram contra desigualdade e corrupção
Com o aumento do nível de endividamento, o governo vem tentando implementar reformas econômicas para garantir um pacote de ajuda internacional. Mas muitas pessoas dizem que estão sofrendo com as políticas econômicas do país e que a má administração do governo é responsável por seus problemas.
"Não estamos aqui pelo WhatsApp, estamos aqui por tudo: por combustível, comida, pão, por tudo", disse Abdullah, um manifestante em Beirute.

Corrupção

Reclamações contra a corrupção do governo estão no centro de vários dos protestos e estão intimamente ligadas à questão da desigualdade.
No Líbano, os manifestantes argumentam que, enquanto sofrem uma crise econômica, os líderes do país têm usado suas posições de poder para enriquecer, por meio de propinas e acordos.
"Vi muitas coisas aqui, mas nunca vi um governo tão corrupto no Líbano", disse Rabab, um manifestante de 50 anos.
O governo aprovou na segunda-feira um pacote de reformas, incluindo a redução dos salários dos políticos, em um esforço para conter a agitação.
No Iraque, manifestantes também pedem o fim de um sistema político que, segundo eles, fracassou.
Um dos principais pontos de reclamação é a maneira como as nomeações para o governo são feitas com base em cotas étnicas, em vez de mérito.
Os manifestantes argumentam que isso permitiu que os líderes abusassem dos fundos públicos para benefício próprio e de seus seguidores, com muito pouco benefício para a maioria dos cidadãos.
Manifestantes protestam contra a suposta corrupção do governo iraquiano e serviços públicos ruins na cidade sagrada de Karbala em 19 de outubro de 2019Direito de imagemEPA
Image captionManifestantes iraquianos dizem que o sistema político é corrupto e que a qualidade dos serviços públicos é ruim
Protestos contra suposta corrupção do governo também ocorreram no Egito. As raras manifestações de setembro foram motivadas por uma convocação de Mohamed Ali, um empresário egípcio que vive em exílio autoimposto na Espanha, que acusou o presidente Abdel Fattah al-Sisi e os militares de corrupção.
As alegações dele de que Sisi e seu governo estão fazendo má administração dos fundos ressoaram entre muitos egípcios, que ficaram cada vez mais descontentes com medidas de austeridade.

Liberdade política

Em alguns países, os manifestantes estão irritados com os sistemas políticos em que se sentem presos.
As manifestações em Hong Kong começaram neste ano devido a um projeto de lei que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para a China em determinadas circunstâncias. Hong Kong faz parte da China, mas seu povo desfruta de liberdades especiais e existe um profundo medo de que Pequim queira exercer maior controle sobre o território.
Como em outros países, a manifestação popular em Hong Kong levou à retirada da polêmica legislação. No entanto, os protestos continuaram.
Entre suas reivindicações, os manifestantes querem agora o sufrágio universal completo, um inquérito independente sobre suposta brutalidade policial e anistia para manifestantes que foram presos.
As táticas deles inspiraram ativistas políticos do outro lado do mundo. Centenas de milhares de pessoas se reuniram em Barcelona para protestar contra o encarceramento de líderes separatistas catalães.
Eles foram condenados em 14 de outubro por sedição (revolta) em uma tentativa frustrada de independência da região em 2017.
Logo após a sentença ser proferida, as pessoas em Barcelona receberam uma mensagem em um popular serviço de mensagens criptografadas dizendo para irem ao aeroporto El Prat, em Barcelona, reproduzindo uma tática usada pelos manifestantes de Hong Kong.
Manifestantes catalães e polícia se enfrentam no aeroporto de Barcelona
A caminho do aeroporto, um grupo de jovens gritou: "Vamos fazer uma Hong Kong", segundo a mídia local.
Manifestantes catalães também distribuíram infográficos feitos em Hong Kong que detalham como os manifestantes podem se proteger dos canhões de água e do gás lacrimogêneo da polícia.
"As pessoas devem ocupar as ruas, todas as revoltas começam lá, olhem para Hong Kong", disse um manifestante em Barcelona à agência de notícias AFP.

Mudança climática

Muitos dos protestos que têm ocorrido estão relacionados ao meio ambiente e às mudanças climáticas. Ativistas do movimento Extinction Rebellion têm protestado em diversas cidades do mundo, exigindo ações urgentes dos governos sobre a questão.
Os protestos ocorreram em países como EUA, Reino Unido, Alemanha, Espanha, Áustria, França e Nova Zelândia. Os participantes se colaram e se acorrentaram às estradas e veículos e tentaram atrapalhar os movimentados centros das cidades.
"Extinction" significa extinção e, "rebellion", rebelião. Membros do grupo, que se identificam como "rebels" (rebeldes) dizem querer promover uma "rebelião contra a extinção das espécies", inclusive a humana, algo que, afirmam, vai acontecer se nada for feito agora por nossos representantes políticos para impedir a mudança climática.
No Brasil, já existe um grupo organizando uma versão brasileira do Extinction Rebellion, que será chamada de "Rebelião ou Extinção".
Ativistas durante manifestação do Extinction Rebellion em Whitehall, Londres, em 18 de outubro de 2019.Direito de imagemREUTERS
Image captionEm Londres, manifestantes contra as mudanças climáticas pedem ações urgentes
"Não temos escolha a não ser nos rebelar até que nosso governo declare uma emergência climática e ecológica e tome as medidas necessárias para nos salvar", disse a ativista australiana Jane Morton.
Jovens de todo o mundo também participam de greves escolares semanais, inspiradas pela ativista sueca Greta Thunberg, de 16 anos. No mês passado, milhões aderiram a uma greve climática global liderada por crianças em idade escolar: de alguns manifestantes nas ilhas do Pacífico a manifestações em massa em cidades como Melbourne, Mumbai, Berlim e Nova York.
"Estamos deixando nossas lições para ensinar uma a você", dizia uma placa.
Professor Edgar Bom Jardim - PE

Flávio, Carlos e Eduardo têm rede de fake news com 1.500 perfis, diz Joice. Quem vai comandar o laranjal?



Joice Hasselmann (PSL-SP) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)
Joice Hasselmann (PSL-SP) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)Foto: Reprodução/Internet
Carlos, Eduardo e Flávio Bolsonaro são líderes de uma rede especializada em campanhas de difamação e notícias falsas usando aplicativos de mensagens. A afirmação é da deputada federal Joice Hasselmann (PSL), que sempre trocou ataques com os filhos do presidente e recentemente se tornou alvo preferencial do clã.

Segundo a deputada, que conversou com o UOL antes de gravar o programa "Roda Viva", da TV Cultura, os filhos do presidente mantêm funcionários que criam perfis falsos em redes sociais, como Instagram, WhatsApp e Twitter.

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A atuação dos filhos de Jair Bolsonaro (PSL) se daria, de acordo com Joice, por meio de ao menos 1.500 perfis falsos que alimentam uma rede propulsora de informações, a chamada "milícia digital", nas palavras da parlamentar. "Não é só fake news, mas também campanhas de difamação".

Ela afirma que fará denúncia ao Ministério Público e apresentará queixa na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados. "Não vou ficar apanhando e ficar quieta."

Procuradas, as assessorias de comunicação de Flávio, Eduardo e Carlos não atenderam às ligações da reportagem para apresentar o ponto de vista dos três sobre o assunto.

Já no Roda Viva, Joice declarou que "nunca houve tanta interferência de uma família dentro de um poder" como existe no governo do presidente Jair Bolsonaro.

Ela disse que concorda com uma declaração feita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) no início deste ano, quando opinou que o governo de Bolsonaro é a "volta de um tipo de monarquia".

"Eu não só concordo (com FHC) como disse a mesma coisa. Disse ao presidente: 'Me ajude a te ajudar'. Esse tipo de fazer um puxadinho do Palácio do Planalto familiar não vai funcionar, isso não é bom para ninguém. Nunca houve tanta interferência de família dentro de um poder, nem na época do Sarney. Isso é perigoso para o país", afirmou.

PARTINDO PARA O ATAQUE"As pequenas crises do PSL vêm desde a transição", afirma Joice. "Mourão (vice-presidente) foi atacado, Santos Cruz (ex-ministro da Secretaria de Governo) foi atacado, Bebbiano (ex-ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência)... Ter funcionários de agentes públicos, pagos com dinheiro do contribuinte, temos uma questão".

A deputada afirma que chegou ao limite na relação com os filhos de Jair Bolsonaro, porém diz manter sua relação com o presidente, inclusive trocando mensagens via WhatsApp.

ELEIÇÕES 2020O morde-assopra na briga interna do PSL tem motivo: o polpudo fundo eleitoral para as eleições que se avizinham. Joice é publicamente candidata à Prefeitura de São Paulo, mas agora se vê atacada dentro do próprio partido.

"O PSL nacional está comigo", garante. Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que tem trocado mensagens agressivas com a deputada, preside o partido no estado de São Paulo.
Com Folha de Pernambuco

Professor Edgar Bom Jardim - PE

Aprovado texto-base da reforma da Previdência. Será o fim das aposentadorias?


Senado aprova texto-base da Reforma da Previdência
Senado aprova texto-base da Reforma da PrevidênciaFoto: Jefferson Rudy/Agência Senado Fonte: Agência Sena

O plenário do Senado aprovou, nesta terça-feira (22), em segundo turno, o texto-base da proposta de reforma da Previdência apresentada pelo governo Jair Bolsonaro (PSL).
Foram 60 votos a favor e 19 contra. Houve uma ausência, do senador Rodrigo Pacheco (DEM - MG).
O Senado terá que analisar ainda quatro destaques -votações de trechos específicos da proposta. Depois que o segundo turno for concluído, a reestruturação das regras de aposentadorias e pensões vai à promulgação, quando passará a valer. Tire suas dúvidas sobre a reforma da Previdência.
A reforma deve atingir mais de 72 milhões de pessoas, entre trabalhadores da iniciativa privada e servidores públicos. O governo espera concluir a votação da proposta ainda na noite desta terça. Mas a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) só deve ser promulgada quando Bolsonaro, que está em viagem internacional, retornar ao Brasil.
Bolsonaro enviou a proposta ao Congresso em 20 de fevereiro. Foi necessário, portanto, negociar por pouco mais de oito meses com o Congresso, responsável por aprovar a reforma da Previdência. O presidente, contudo, ficou distante da articulação e convencimento de parlamentares em favor do projeto.
O ministro Paulo Guedes (Economia) e o secretário especial de Previdência e Trabalho, Rogério Marinho, foram os principais interlocutores do governo para que a Câmara aprovasse a reforma, em agosto, e para que o Senado caminhe para concluir a análise nesta terça.
Marinho e sua equipe acompanham o segundo turno de dentro do plenário e tentam garantir que, na votação dos destaques, o governo não sofra derrotas. Até com o PT eles tentaram negociar. Apesar das concessões feitas durante a tramitação do projeto no Congresso, os principais pilares da reforma foram mantidos -até a votação do texto-base no Senado.
A estimativa da equipe econômica é que a versão atual da proposta represente um corte de gastos de aproximadamente R$ 800 bilhões em dez anos. A versão original da PEC, enviada por Bolsonaro, teria um impacto de R$ 1,2 trilhão em uma década.
Se conseguir concluir a votação no Senado nesta terça, o governo Bolsonaro ficará atrás apenas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que, em 2003, aprovou uma reforma da Previdência em pouco mais de sete meses e meio. 
A restruturação de Lula, porém, foi focada no funcionalismo público. A proposta de Bolsonaro é mais ampla e atinge o setor público e privado. Assim que a reforma for promulgada, quem ainda vai entrar no mercado de trabalho terá que completar 65 anos, se homem, e 62 anos, se mulher, para cumprir o requisito de idade mínima para aposentadorias.
Quem já está na ativa poderá se aposentar antes da idade mínima. Há cinco regras de transição para a iniciativa privada. Para servidores públicos, há duas. O trabalhador poderá optar pela mais vantajosa. As regras de transição também entram em vigor assim que a PEC for promulgada.
O mesmo vale para o novo cálculo das aposentadorias, que passa a considerar todo o histórico de contribuições do trabalhador. A fórmula atual é mais vantajosa, pois considera apenas 80% das contribuições mais elevadas.
A reforma também torna mais rígido o cálculo de pensões por morte, que corta o valor do benefício para 60% mais 10% para cada dependente adicional. Hoje, não há esse redutor. As pensões, porém, não podem ficar abaixo de um salário mínimo (R$ 998).
Não é a primeira vez que o Congresso teve que decidir sobre a criação de uma idade mínima para aposentadorias. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) apresentou uma ampla proposta de reformulação da Previdência em 1995 que também previa essa exigência, mas numa faixa etária mais baixa que a de Bolsonaro.
O tucano levou mais de três anos e oito meses para aprovar a reforma e foi derrotado em relação a esse item. Por um voto, FHC não conseguiu aprovar a idade mínima na Câmara. Com esse histórico, os articuladores políticos de Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), foram cautelosos no calendário de votação da reforma de 2019. Maia foi um dos principais fiadores da medida e está alinhado à agenda reformista e liberal de Guedes.
Além da PEC que altera as regras de aposentadoria da iniciativa privada e servidores públicos, o governo enviou ao Congresso um projeto para reestruturar o regime de Previdência dos militares. Essa proposta, porém, ainda está em análise da Câmara.
Com Folha de Pernambuco
Professor Edgar Bom Jardim - PE

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Danos do óleo no litoral do Nordeste vão durar décadas, dizem oceanógrafos



Voluntários e funcionários públicos limpam manchas de óleo em pedrasDireito de imagemVICTOR UCHÔA/BBC BRASIL NEWS
Image captionOceanógrafos, químicos e autoridades estaduais avaliaram o impacto da movimentação da mancha pela costa do Nordeste
"A contaminação química dura muito mais tempo do que aquilo que a poluição visual pode sugerir."
Essa não é uma afirmação boa de ouvir, quando se trata da mancha de óleo que atinge boa parte do litoral brasileiro desde 30 de agosto, mas é a realidade expressada pela oceanógrafa Mariana Thevenin, uma das articuladoras do grupo de voluntários Guardiões do Litoral, que se formou em Salvador para limpar praias, estuários e manguezais desde que a contaminação chegou à costa da Bahia.
Em um cenário ideal, aponta Thevenin, o derivado de petróleo deveria ter sido barrado antes de chegar à areia e entrar pelos rios. Entretanto, se o óleo já chegou à costa, a limpeza deve ser feita na maior velocidade possível, na tentativa de evitar que ele volte para o mar com o movimento das marés ou que as substâncias tóxicas ali contidas se entranhem nos variados sedimentos costeiros.
Ainda assim, não se pode criar ilusões. Mesmo quando, para os olhos, parece limpo, o risco pode seguir oculto por muitos anos.
"Essas substâncias contaminam todos os organismos do ambiente e isso facilmente cai na cadeia alimentar. Um pequeno peixe, por exemplo, pode comer algo que esteja contaminado. Isso entra na cadeia até chegar no peixe que consumimos", alerta Thevenin, criadora do perfil Oceano para Leigos, no Instagram
Nos noves Estados do Nordeste, já são 200 localidades atingidas pelo óleo, de acordo com a atualização feita no sábado (19/10) pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Oceanógrafos, químicos e autoridades estaduais ouvidos pela BBC News Brasil avaliaram o impacto da movimentação da mancha pela costa do Nordeste, após a chegada à Baía de Todos os Santos, em Salvador.
Até chegar ali, o óleo já havia deixado um rastro tóxico por milhares de quilômetros e atingido os mangues e corais dessa região em uma etapa mais avançada de degradação — um tipo de contaminação que é mais difícil de ser limpa e que permanecerá durante anos no meio ambiente, segundo os especialistas.

Degradação lenta

O petróleo cru, ainda que seja altamente tóxico, é uma substância orgânica. Dessa forma, ele pode ser degradado através de fatores naturais, como a rebentação das ondas (que dispersam o material), a irradiação solar (que evapora determinados componentes) e até mesmo bactérias que se alimentam do carbono contido no material. O problema, nesse caso, é o tempo.
"A degradação natural é extremamente lenta. A depender do ambiente, leva décadas. Em áreas onde já ocorreram derrames, temos análises feitas anos depois do episódio e ainda assim é detectada a toxicidade. Por isso seria importante evitar que esse óleo chegasse na costa", diz Carine Santana Silva, que é oceanógrafa, pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e especialista em petróleo e meio ambiente.
Com Farol de Itapuã ao fundo, voluntários trabalham na limpeza do óleo em SalvadorDireito de imagemVICTOR UCHÔA/BBC NEWS BRASIL
Image captionCom Farol de Itapuã ao fundo, voluntários trabalham na limpeza do óleo em Salvador
Além do risco na cadeia alimentar, as pessoas também estão sujeitas a entrar em contato direto com os contaminantes que permanecerem no ambiente.
Isso pode acontecer em uma simples caminhada pela areia da praia ou no banho de mar, tocando involuntariamente em resíduos de óleo ou inalando os gases liberados por eles.
"O monitoramento das regiões atingidas precisa ser feito por anos, com análises constantes, para garantir que as pessoas não estão frequentando zonas intoxicadas", adverte Carine Silva.
A Bahia Pesca, órgão governamental responsável pelo fomento da atividade no Estado, produziu um relatório preliminar após monitoramento em áreas pesqueiras já atingidas pelo óleo.
"Neste ambiente vivem animais que estarão em contato direto com o poluente e têm grande importância econômica, como caranguejos, aratus, sururu, lambretas. A mariscagem será afetada diretamente nesses locais, visto que, com a presença de óleo, a recomendação é a paralisação da pesca. O comércio de organismos aquáticos dessas áreas ficará comprometido. A pesca como um todo deverá ser impactada, tendo em vista que os consumidores foram alertados para não adquirirem produtos pesqueiros", indica o documento.
De acordo com a estatal, o monitoramento seguirá sendo feito durante e após a crise, inclusive com análise química de potenciais contaminantes em peixes e mariscos a serem coletados.

Sem medição

No petróleo, estão contidos compostos orgânicos voláteis (COVs) e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs), ambos altamente tóxicos e cancerígenos.
Os COVs evaporam com relativa rapidez, mas os hidrocarbonetos se mantêm íntegros por muito tempo. Para o mais famoso deles, o benzeno, a resolução 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) determina um limite que vai de 0,051 mg a 0,7 mg por litro de água salgada. Passando disso, já impacta a biota marinha e a saúde humana — ainda não existe resultado de medição na Bahia após a chegada do óleo.
"Os governos não querem fazer alarde porque um caso como esse afeta o turismo, mas existe a questão da saúde, tanto de quem frequenta praias como de quem trabalha nessas zonas, mariscando, pescando, vendendo", observa a química Sarah Rocha, que atua no laboratório da pós-graduação em Petróleo, Energia e Meio Ambiente da UFBA.
Voluntário com luva e máscara trabalha sobre manchas de óleo em pedrasDireito de imagemVICTOR UCHÔA/BBC BRASIL NEWS
Image captionNas áreas contaminadas vivem animais em contato direto com o poluente e têm grande importância econômica, como caranguejos, aratus, sururu, lambretas
"Essas pessoas vão ficar em contato com esses resíduos por muito tempo, porque há também uma sustentação financeira em jogo. É muito difícil, por exemplo, que esses mariscos deixem de ser recolhidos para venda e é certo que muita gente vai ingerir alimentos contaminados", acrescenta ela.
Sarah Rocha integra a equipe que vem fazendo análises de amostras do óleo que tem chegado à Bahia, verificando sua origem e seu estado físico-químico. Segundo ela, o material que toca as praias já chega bem degradado, tendo passado por seguidas intempéries, e resta somente a fase da degradação bacteriana — justamente a mais demorada.
"Notamos que essas amostras têm pouca solubilidade em água. Então, o que não for retirado, ainda vai parar no fundo do mar, sem ninguém ver, contaminando mais esse ambiente."

Manguezais e corais ameaçados

As Cartas de Sensibilidade Ambiental ao Óleo (Cartas SAO), publicação do Ministério do Meio Ambiente, indicam os níveis de sensibilidade de cada ecossistema costeiro e marinho no Brasil, servindo como um guia para ações que visem a mitigar os impactos de desastres como o do momento.
No documento está indicado, por exemplo, que os manguezais e recifes de coral têm sensibilidade nível 10, o mais alto na escala das Cartas SAO. Desse modo, deveriam ser as zonas prioritárias nas ações de contenção do óleo.
A Bahia foi o último Estado do Nordeste a ser atingido pelo derramamento, mais de um mês após o primeiro registro oficial, na Paraíba. Ainda assim, nenhuma barreira de contenção foi montada como medida preventiva.
Pelo menos duas áreas de extensos manguezais baianos já foram atingidas, nas barras dos rios Itapicuru e Pojuca, ambas no litoral norte. Além disso, o óleo já penetrou na Baía de Todos os Santos — maior do país e segunda maior do mundo —, margeada por dezenas de manguezais, bancos de coral e estuários.
"Em áreas lamosas como os mangues, que têm pouca movimentação de água e sedimentos mais finos, é mais difícil fazer a limpeza. Esse óleo entra nos buracos e se mistura com o sedimento. São décadas para o ambiente degradar (o óleo)", afirma Mariana Thevenin.
Raízes manchadas de óleo em mangue na BahiaDireito de imagemMATEUS MORBECK
Image captionPelo menos duas áreas de manguezais baianos foram atingidas, nas barras dos rios Itapicuru e Pojuca, no litoral norte; na foto, mangue de Itacimirim, nessa região
Carine Silva compartilha a preocupação. "Onde bate a onda, a abrasão dispersa o material. A areia também não tem tendência geoquímica de reter os resíduos. Mas no mangue a permanência é bem maior, porque é uma área porosa, que prende o contaminante."
"Nos próximos anos, vai ser bem complicado o consumo nestas regiões, porque esses ecossistemas são zonas de reprodução de muitas espécies e abrigam outras tantas que vivem enterradas no sedimento, como ostras, sururu e chumbinho. Justamente onde a contaminação vai impregnar", emenda a oceanógrafa.

Demora no combate

Para Carine, através das Cartas SAO, poderiam ser identificadas até mesmo "áreas de sacrifício", para onde o óleo seria direcionado se houvesse o entendimento que era impossível detê-lo. Mas, sem acionamento de um plano de contingência, o que se vê é um espalhamento da matéria por variadas zonas, sejam elas mais ou menos sensíveis.
Na sexta-feira (18/10), o Ministério Público Federal (MPF), com aval dos procuradores dos noves Estados nordestinos, entrou com uma ação contra a União alegando omissão no caso das manchas de óleo.
O pedido era de que, em 24 horas, fosse colocado em prática o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água (PNC), criado em 2013. A multa diária prevista é de R$ 1 milhão em caso de descumprimento.
"Afinal, tudo que se apurou é que a União não está adotando as medidas adequadas em relação a esse desastre ambiental que já chegou a 2.100 quilômetros dos nove Estados da região", diz a ação.
Ainda na sexta, o Ministério do Meio Ambiente divulgou nota afirmando que "as ações do Plano Nacional de Contingência (PNC) e do Grupo de Acompanhamento e Avaliação (GAA) estão em pleno funcionamento".
Caranguejo em mangue repleto de lamaDireito de imagemMATEUS MORBECK
Image captionEm áreas de lama como os mangues, com pouca movimentação de água e sedimentos mais finos, é mais difícil fazer a limpeza
"Não há nenhuma demora de nenhum órgão. Todos estão trabalhando de maneira ininterrupta, desde o aparecimento da mancha no dia 2 de setembro. Não se poupou nenhum esforço", afirmou o ministro Ricardo Salles no comunicado da pasta.
À BBC News Brasil, o superintendente do Ibama na Bahia, Rodrigo Alves, disse que o monitoramento das praias é feito diariamente, o que indica onde devem ser concentrados os esforços de limpeza.
Argumentando que o óleo cru tem se movido sob a superfície do mar, o que só permite sua visualização quando toca a costa, Alves diz que "é difícil prever onde montar as bóias de contenção".
Em seguida, enfatizou que toda a operação de monitoramento e limpeza deveria estar sendo custeado pelo agente poluidor, ainda não identificado.

Limpeza

Diante de toneladas de um material tão tóxico, pode parecer contraditório, mas, se o óleo não foi barrado no mar e já chegou nas praias, rios e mangues, a indicação é que a limpeza seja feita mesmo manualmente — com todos os equipamentos de proteção necessários (botas e luvas de PVC, calça, camisa de manga comprida e máscara para poeira ou gás, a depender do volume de óleo).
Como estes são ecossistemas delicados, o uso de maquinário pesado pode fazer com que os contaminantes fiquem compactados e ainda mais incrustados nos sedimentos.
Na artigo "How to clean a beach", publicado pela revista Nature, o biólogo John Whitfield consegue até manter algum bom humor: "pessoas com pás e peneiras são as únicas ferramentas sensíveis o suficiente para remover o óleo enquanto protegem o solo e os organismos ao redor".
Ou seja, para tentar mitigar uma contaminação invisível no futuro, é preciso meter a mão nos contaminantes no presente.
Mais ainda: toda a população terá que se manter alerta por um longo período e cobrar dos órgãos governamentais monitoramento periódico das praias, peixes e mariscos. Pois, como resume Carine Silva, "o senso comum é achar que porque não estamos vendo, não existe. Mas, neste caso, o perigo está justamente no que não vemos"
Professor Edgar Bom Jardim - PE