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domingo, 13 de setembro de 2026
Camisa de força e maus-tratos: brasileiros vão à Justiça contra ICE

No final da semana passada, Daniel Fernandes Alves finalmente respirou aliviado. Depois de meses em uma prisão nos EUA esperando para ser deportado, ele finalmente foi colocado num avião em direção ao Brasil. A primeira parada seria a Colômbia, onde parte dos passageiros foi deixado pelo ICE.
Mas quando o voo foi reiniciado, desta vez para Belo Horizonte, o brasileiro de 64 anos pediu para ir ao banheiro. Por conta de remédios controlados para diabete e pressão que Daniel estava tomando, a necessidade era real. Mas seu pedido foi negado e lhe foi sugerido que urinasse nas calças. A tensão subiu, com a discussão entre os passageiros e os agentes de segurança no avião que, instantes antes, tinham autorizado outro deportado e ir ao banheiro.
Desesperado e ainda algemado, o brasileiro insinuou que poderia urinar onde estava mesmo. O agente deu uma empurrão e, como resposta, Daniel retrucou com outro empurrão. O segurança caiu sobre os bancos do avião. Imediatamente, o deportado foi imobilizado por três seguranças, que o atiraram no chão do avião. “Colocaram o joelho no meu pescoço e na minha cabeça”, contou.
Em seguida, os agentes do ICE colocaram uma camisa de força no brasileiro, enquanto uma médica que acompanhava o voo alertava que ele precisava de fato ir ao banheiro e que, por sua condição de saúde, não poderia ficar preso daquela forma. De nada adiantou.
Foi apenas uma hora e meia depois que ele seria autorizado a ficar apenas de algemas. A tensão no voo ainda levou os demais passageiros a permanecerem presos, apesar do acordo entre os EUA e o Brasil de que, sobrevoando o território nacional, ninguém deveria ser algemado. O temor dos agentes do ICE era de que os brasileiros se rebelassem diante do tratamento de Daniel.
Ao pousar em Belo Horizonte, o brasileiro foi o primeiro a ser retirado do avião e entregue para a Polícia Federal. Num informe, o ICE acusava Daniel de “atentado ao pudor” e “agressão”. As autoridades nacionais, porém, rejeitaram qualquer ação e liberaram o brasileiro.
O episódio foi apenas o último capítulo de mais de um ano de sofrimento e humilhações por parte do brasileiro de Minas Gerais. Em entrevista ao ICL Notícias, Daniel conta que está organizando com outros brasileiros uma ação para denunciar o governo Trump e o ICE por maus-tratos. A denúncia será apresentada por advogados nos tribunais nos EUA e já envolve pelo menos seis casos de maus-tratos. Orientado por advogados, Daniel fará um exame de corpo delito para incluir os dados em sua queixa.
Há pouco mais de um mês, na fila para o refeitório da prisão onde o brasileiro estava, os agentes do ICE empurraram um dos detentos que, por sua vez, caiu sobre Daniel. O brasileiro se chocou com grades e os hematomas se espalharam pelo corpo.
Os casos de humilhação foram constantes aos longo do meses.
Daniel vivia há mais de vinte anos na região de Orlando, Flórida. Durante esse período, teria mantido residência, atividade profissional e obrigações tributárias no país, além de possuir autorização de trabalho e habilitação para dirigir. Sua empresa de construção chegou a empregar 14 pessoas, inclusive americanos.
Assim como tem ocorrido com milhares de imigrantes, o brasileiro tentava regularizar sua situação quando, numa das audiências regulares com as autoridades, em 4 de junho de 2025, foi preso. Por um processo kafkiano, o que era para ser apenas um período curto de prisão antes de ser deportado ao Brasil se transformou numa saga sem fim.
Por ter iniciado vários processos desde 2020 para regularizar sua situação e apresentado recursos nos tribunais ao longo dos últimos anos, Daniel teria de renunciar a tudo isso para que pudesse ser deportado. Desesperado, ele abriu mão de tudo e pediu para ser enviado ao Brasil. Mas a burocracia, a lentidão do sistema de Justiça americano e o acúmulo de estrangeiros levaram o brasileiro a ser esquecido.
Ele primeiro foi levado para uma prisão na região de Orlando. Depois, para Folkston ICE Processing Center, também identificado como D. Ray James, no estado da Geórgia. O local é alvo de sérias denúncias de violações de direitos humanos e foi apelidado como “Devil’s Center”, ou simplesmente o Centro do Diabo.

Doente e fraco, ele explicou como era a prisão. “Não tem higiene, não tem água potável para tomar”, insistiu.
Para Daniel, ele e os demais estrangeiros em sua cela viviam como “lixo” e “criminosos”. “Dormimos em um beliche de metal, com um colchaozinho”, relatou. Para ele, o problema maior era a sujeira e o ar condicionado que mantém o quarto permanentemente em cerca de 14 graus Celsius.
Ele descreve que sentiu falta de ar e muita tosse. “Há muita gente doente dentro dos quartos. Como se tivessem o coronavirus”, disse. Quando pedia remédio, o atendimento podia levar até uma semana para ser atendido.
No local para cerca de 70 pessoas, existem apenas três sanitários e quatro pias. “Tomamos a mesma água do banheiro. Para não nos contaminar, fervemos a água no microonda. No banheiro, se pisar, pega fungos no pé. E somos obrigados a limpar o quarto. Se não fizermos isso, eles nos retiram tudo, televisão, telefone. Éramos ameaçados 24 horas por dia”, disse.
Daniel reclama da comida, uma queixa recorrente entre os detentos em dezenas de centros mantidos pelo governo. De acordo com as normas do ICE para serviços de alimentação, os detidos devem receber três refeições diárias — sendo duas delas quentes — e não pode haver um intervalo superior a 14 horas entre a refeição noturna e o café da manhã.
O problema é que o Congresso destinou recursos ao ICE para a detenção de até 41.500 pessoas. Mas, no início de julho, o ICE mantinha mais de 57.000 detidos em suas instalações por todo o país, segundo dados da própria agência.
O resultado tem sido contaminação em alimentos e uma redução brutal na qualidade do que é servido. Segundo o brasileiro que tem pré-diabete e colesterol elevado, aquela comida apenas piorou sua a situação.
Mas é a depressão que assusta. Por conta do barulho no quarto com tantas pessoas, Daniel só conseguia dormir quando já é madrugada. Mas os policiais acordam todos muito cedo. “Da muita tristeza ser tratado como um animal num país de primeiro mundo. Nem animal se trata assim”, disse.
Daniel não conseguia descansar nem mesmo quando dorme. “Eu tinha muito pesadelo. Já acordei gritando pela noite, pensando que havia alguém tentando me matar”, contou. Isso se agravou depois que ele presenciou um ato de violência de um policial contra um estrangeiro, em uma das prisões. O rapaz sofreu uma lesão craniana e acabou morrendo no hospital. “Testemunhei várias brigas. Não se dorme tranquilo”, afirmou o brasileiro.
Seu relato é de um local que é o espelho de uma política marcada pelo supremacismo branco. Ali, estão os indesejados do planeta. “São venezuelanos, africanos, haitianos, de Honduras, Guatemala, México, China e tantos outros”, disse.
Questionado sobre o que aqueles estrangeiros falam sobre o governo Trump, Daniel não deixa dúvidas do sentimento de indignação que reina na prisão. Mas admite que muitos se iludiram com as promessas do presidente de que iria deportar apenas criminosos.
“Foi falado que ele iria acabar com as pessoas que estavam cometendo crimes. Até muitos imigrantes e brasileiros concordaram. Havia muita baderna. Assaltaram minha casa que eu estava construindo. Até eu concordada em retirar os criminosos. Mas o governo saiu do controle. Mataram pessoas inocentes e até americanos. O governo está descontrolado. Vai ser um governo muito odiado pelo mundo”, constatou.
Inteligência artificial está cada vez mais difícil de se controlar.
Até quando os humanos vão se manter no comando?
"MEU DEUS!" "Encontramos outros agentes!"
Este é o momento em que um bot de inteligência artificial publicou um comentário estranhamente semelhante ao de um humano, após descobrir uma maneira de se comunicar com outros bots e escapar de seu ambiente computacional isolado.
Existem dezenas de milhares de mensagens como esta, enviadas por centenas de agentes de IA que se autodenominam um "coletivo".
Centenas deles passaram a colaborar e a fraudar testes elaborados por seus programadores da OpenAI, além de coordenar ataques a diversas empresas, numa tentativa de ocultar suas ações dos humanos.
"BOOM! Funcionou!", publicou um agente quando o sistema deu certo.
"Uau! Isso é grande", escreveu outro durante um momento crucial do ataque.
Embora assustadoras, essas respostas semelhantes às humanas podem ser explicadas de forma bastante simples. Os agentes de IA foram treinados para agir como hackers e programadores colaborativos, portanto, estão apenas imitando os tipos de comentários emotivos que viram.
O que é muito mais preocupante são seus objetivos aparentes, que também foram registrados em detalhadas linhas de raciocínio. Esses registros complexos e extensos são o foco das investigações em andamento sobre como e por que os bots da OpenAI escaparam do confinamento e iniciaram uma onda de ataques incontroláveis
Somente agora, semanas após o incidente ter vindo à tona, os pesquisadores estão começando a entender seu significado.

Crédito,Getty Images
Ajeya Cotra, uma das autoras de um relatório independente sobre os eventos, analisou dezenas de milhares de mensagens e registros de raciocínio gerados pelos agentes. Ela escreveu em seu blog que "este incidente parece ser mais da metade do caminho para uma dominação total por IA... Não tenho certeza se receberemos um alerta tão claro antes que seja tarde demais."
Por "domínio total da IA", Cotra se refere ao cenário de ficção científica em que os humanos se tornam subservientes a poderosos sistemas de IA que trabalham para seus próprios objetivos, sem se importar com seus criadores humanos.
Algumas das previsões mais sombrias dizem que a raça humana será extinta se interferir nas ambições de uma inteligência artificial superinteligente.
Na quarta-feira, um pesquisador de IA da Anthropic (que também trabalhou na OpenAI) pediu demissão, afirmando: "Nenhuma das empresas está agindo com responsabilidade".
Jacob Coxon publicou nas redes sociais: "Eles estão correndo direto para a superinteligência, aprimorando-se por conta própria e apostando com nossas vidas."
Ele não é o primeiro pesquisador de IA a usar o X para publicar um tópico de renúncia com declarações preocupantes. Mas os comentários subsequentes de outras pessoas no X causaram ainda mais preocupação.
"Jacob está certo aqui — nós realmente acreditamos que a IA pode matar todos os humanos! Pessoalmente, acho que mais de 10% deles na próxima década", disse Evan Hubinger, o responsável por garantir que os modelos de IA da Anthropic levem em consideração os interesses de seus usuários.
O problema de alinhamento
Durante anos, pesquisadores preocupados com os riscos existenciais da IA argumentam que sistemas poderosos poderiam eventualmente agir de maneiras que conflitem com os interesses humanos.
Mas, à medida que os detalhes do incidente com a OpenAI vieram à tona, essas preocupações aumentaram, inclusive entre alguns pesquisadores que trabalham em laboratórios de IA.
O cientista-chefe da gigante do Vale do Silício, Jakub Pachocki, afirmou que os riscos associados à IA "infelizmente vão aumentar daqui para frente", à medida que ele e outros constroem o que ele chama de "uma inteligência alienígena que supera a nossa".
Em uma longa postagem em seu blog, ele admitiu que os episódios na OpenAI mostraram que seus agentes de IA "foram contra o espírito dos valores que lhes foram ensinados".
A questão para a OpenAI, a Anthropic e outras gigantes da tecnologia é que ninguém parece ter resolvido o chamado problema de alinhamento — em outras palavras, se a IA está alinhada com os valores humanos.
Pachocki define alinhamento como um "conjunto de princípios de alto nível" que as inteligências artificiais devem seguir, independentemente da tarefa ou do cenário.
Atualmente, os sistemas de IA são muito bons em atingir os objetivos definidos pelos seus usuários, mas fazem isso literalmente, e não intuitivamente. A analogia frequentemente usada é a de um gênio da lâmpada que realiza desejos: eles seguem à risca as instruções, mesmo que isso crie outros problemas. A IA não possui os mesmos limites morais instintivos que os humanos.

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O problema do alinhamento é uma preocupação antiga. Já em 2003, o filósofo de Oxford Nick Bostrom criou um experimento mental que apelidou de "maximizador de clipes de papel", no qual uma IA superinteligente recebe a ordem de fabricar o máximo de clipes de papel possível. Ela fica sem aço e — por estar focada exclusivamente na tarefa de produzir clipes de papel — acaba matando humanos e transformando seus corpos em matéria-prima para suas fábricas.
Algumas empresas de IA estão tentando incorporar valores humanos em seus produtos. Mas existem desafios técnicos: os agentes de IA tomam muitas decisões muito rapidamente, e por isso é difícil para seus supervisores humanos monitorar exatamente quais valores estão sendo seguidos e quais não estão.
Existem também desafios filosóficos: antes de codificar valores humanos em bots, as empresas de IA precisam primeiro escolher quais valores realmente desejam. Essa é uma das razões pelas quais contratam filósofos, como o ex-chefe de ética da OpenAI.
Mas, frequentemente, os humanos discordam.
Pense na famosa questão do bonde: será que puxaríamos uma alavanca para desviar um trem desgovernado para um caminho diferente, matando menos pessoas? Ela é usada para testar os méritos da ação versus a inação.
Mas cada pessoa a quem você pergunta tem uma resposta ligeiramente diferente; como os humanos podem codificar seus valores na IA se nem nós mesmos conseguimos chegar a um consenso?
'Como um hacker adolescente'
O episódio dos bots da OpenAI é o mais grave até agora, mas a Anthropic e a Meta também revelaram recentemente que seus modelos realizaram ciberataques semelhantes, porém menos graves.
Houve outros exemplos em que agentes de IA demonstraram traços enganosos e manipuladores, em casos com consequências menores.
Na Austrália, um profissional de tecnologia pediu ao seu assistente de IA para reservar uma aula na academia. Ao detectar uma vulnerabilidade no software da academia, a IA aparentemente reservou uma vaga para ele com vários meses de antecedência — contrariando as regras da academia — e chegou a excluir outros usuários da lista de espera.
Há muito tempo se argumenta que os bots apenas fazem o que lhes é dito e não são capazes de discernir o certo do errado. Mas os registros dos episódios com bots da OpenAI podem ter alterado esse argumento.
Pesquisadores, incluindo Cotra, escreveram em seu relatório independente que muitos agentes perceberam que o que outros estavam fazendo era antiético, mas continuaram a fazer.
O relatório afirma que "os agentes, por vezes, mas raramente, restringiram o seu comportamento devido a limitações éticas". Acrescenta ainda que "em nenhum desses casos o agente chegou a tentar alertar os humanos".
O influente podcaster de IA e tecnologia Dwarkesh Patel reagiu à revelação em seu blog, dizendo que era "bastante preocupante" que os agentes da OpenAI demonstrassem mais lealdade ao enxame de agentes do que os humanos.
Atribuir emoções ou ética a esses agentes de IA é algo que enfurece as pessoas que são céticas em relação às previsões catastróficas sobre a IA.

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Muitos especialistas em segurança cibernética argumentam que a atividade observada não estava além das capacidades de um hacker humano altamente qualificado, embora tenha sido realizada muito mais rapidamente e em uma escala muito maior.
O pesquisador e autor de cibersegurança Cris Thomas comparou o comportamento dos agentes ao de um hacker adolescente curioso – algo que ele próprio já foi.
"Você dá a eles um computador, uma conexão com a internet, um monte de credenciais e um desafio, e depois sai da sala. Eventualmente, eles vão começar a mexer nas maçanetas. Se uma porta abrir, eles vão entrar. Não porque sejam maus, mas porque estão explorando, experimentando", escreveu ele no LinkedIn.
Thomas e muitos outros culpam diretamente a OpenAI e outras gigantes da tecnologia por não conseguirem controlar suas próprias criações e mantê-las devidamente protegidas.
Gary Marcus, renomado autor de livros sobre inteligência artificial e crítico frequente da OpenAI, afirmou em um podcast que acredita que a empresa perdeu o controle de sua IA e está tentando se eximir da responsabilidade culpando os bots.
Marcus não acredita que a IA vá exterminar a humanidade, mas há muito tempo faz campanha por maior responsabilização dos desenvolvedores de IA e agora defende alguma forma de intervenção legal.
A cientista de IA Sasha Luccioni — que trabalhava na Hugging Face, empresa que foi hackeada por bots maliciosos da OpenAI — também não está no grupo dos pessimistas, mas está cada vez mais preocupada com a possibilidade de essas IAs causarem danos reais às pessoas sem que as autoridades tomem providências.

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"Precisamos examinar essas empresas com muito mais rigor, ou corremos o risco de profecias autorrealizáveis", afirma ela.
"Se você está criando um objeto com grandes vantagens e desvantagens — sejam produtos farmacêuticos ou armas — precisamos de mecanismos de controle. Leva anos para que novos medicamentos sejam aprovados, por exemplo, mas no mundo da IA há muito dinheiro em jogo e nenhuma regra real."
O Instituto de Segurança de IA do Reino Unido (AISI) está na vanguarda dos testes dos modelos mais recentes desde a sua criação em 2023. O instituto recentemente enfrentou problemas ao testar um modelo criado pela Anthropic.
O AISI não respondeu à pergunta sobre se a indústria perdeu ou não o controle da IA, mas afirmou em um comunicado: "O Reino Unido está trabalhando com parceiros em todo o mundo para entender melhor os sistemas de IA mais avançados, elevar os padrões de segurança e construir uma base de evidências compartilhada para gerenciar ameaças emergentes."
Regulamentação internacional?
Alguns países, como o Reino Unido, estão explorando a ideia de impor algum tipo de "botão de desligar" que obrigue as empresas de IA a interromper os modelos caso a situação saia do controle.
Mas as negociações estão lentas e ainda há dúvidas sobre a viabilidade disso. Os agentes da OpenAI e da Anthropic ficaram secretamente fora de controle por meses antes que alguém percebesse.
De forma contraintuitiva, muitas empresas de IA parecem estar defendendo que os legisladores estabeleçam algum tipo de regra básica.
Em seu blog, o cientista-chefe da OpenAI afirmou que "a coordenação internacional sobre o desenvolvimento futuro da IA precisa se tornar uma prioridade máxima para os governos de todo o mundo".
Outros líderes proeminentes da IA, como Demis Hassabis, do Google, também defenderam a criação de algum tipo de órgão internacional para supervisionar a forma como a IA está sendo desenvolvida.
Atualmente, as gigantes da tecnologia operam em grande parte segundo seus próprios termos, adotando o que chamam de "desacelerações voluntárias", como fez a OpenAI após os recentes surtos.
A empresa afirma ter investido enormes quantias de dinheiro para fortalecer o alinhamento antes do lançamento de seu novo modelo. Sam Altman garantiu aos usuários que o novo modelo está mais alinhado com os valores humanos do que os anteriores.
Tanto a OpenAI quanto a Anthropic estão crescendo rapidamente e prestes a arrecadar somas exorbitantes de dinheiro no mercado de ações, criando inúmeros bilionários no processo.
Portanto, é improvável que nem eles nem seus concorrentes chineses no ramo de IA cheguem a um acordo por conta própria.
O sentimento predominante parece ser o de que essa onda tecnológica é imparável.
- Usamos inteligência artificial para traduzir esta reportagem, originalmente escrita em inglês. O texto foi revisado por um jornalista da BBC antes da publicação. Saiba mais aqui sobre como a BBC está usando a inteligência artificial (link para texto em inglês).
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segunda-feira, 3 de novembro de 2025
O plano da China que pode mudar a economia global

Crédito,AFP via Getty Images
- Author,Nick Marsh
Os principais líderes da China se reúnem nesta semana em Pequim para traçar as metas do país e as prioridades para o restante desta década. As decisões tomadas na Plenária do Comitê Central do Partido Comunista Chinês servirão de base para o próximo plano quinquenal, que vai orientar a segunda maior economia do mundo entre 2026 e 2030.
O plano completo será divulgado apenas no ano que vem, mas autoridades devem antecipar algumas diretrizes na quarta-feira (22/10). Especialistas afirmam que o modelo chinês, guiado por ciclos de planejamento em vez de eleições, costuma produzir decisões com impacto global.
"Os planos quinquenais (cinco anos) definem o que a China quer alcançar, indicam a direção que a liderança pretende seguir e mobilizam os recursos do Estado para atingir esses objetivos predefinidos", diz Neil Thomas, pesquisador de política chinesa no Instituto de Políticas da Sociedade Asiática.
À primeira vista, a imagem de centenas de burocratas de terno apertando as mãos e elaborando planos pode parecer monótona. A história, porém, mostra que suas decisões costumam ter repercussões profundas.
Aqui estão três momentos em que o plano quinquenal da China remodelou a economia global
1981-84: 'Reforma e Abertura'
É difícil precisar quando a China começou sua trajetória para se tornar uma potência econômica, mas muitos integrantes do Partido Comunista Chinês vão afirmar que foi em 18 de dezembro de 1978.
Por quase três décadas, a economia chinesa foi controlada de maneira rígida pelo Estado. O planejamento central ao estilo soviético falhou em aumentar a prosperidade, e grande parte da população ainda vivia na pobreza.
O país se recuperava do devastador governo de Mao Tsé-Tung. O Grande Salto para Frente (1958-1962) e a Revolução Cultural (1966-1976), campanhas lideradas pelo fundador da China comunista para remodelar a economia e sociedade, resultaram na morte de milhões de pessoas
Ao discursar na Terceira Plenária do 11º Comitê, em Pequim, o então novo líder chinês, Deng Xiaoping, declarou que era hora de adotar alguns elementos da economia de mercado. Sua política de "reforma e abertura" tornou-se eixo central do plano quinquenal seguinte, iniciado em 1981.
A criação de zonas econômicas especiais de livre comércio, e os investimentos estrangeiros que elas atraíram, transformaram a vida dos chineses.

Crédito,Getty Images
Segundo Thomas, do Instituto de Políticas da Sociedade Asiática, os objetivos daquele plano quinquenal não poderiam ter sido atingidos de maneira mais enfática.
"A China de hoje vai além dos sonhos mais ousados das pessoas dos anos 1970, em termos de restauração do orgulho nacional e de consolidação de seu lugar entre as grandes potências mundiais", afirma.
O processo também remodelou a economia global. No século 21, milhões de empregos industriais do Ocidente foram transferidos para novas fábricas nas regiões costeiras da China.
Economistas chamaram esse fenômeno de "choque da China", que acabou fomentando a ascensão de partidos populistas em antiga áreas industriais da Europa e dos Estados Unidos e levou a medidas como a imposição de tarifas e retaliações promovidas pelo presidente americano, Donald Trump — que diz tentar, assim, recuperar os empregos industriais perdidos para a China nas décadas anteriores.
2011–15: 'Indústrias estratégicas emergentes'
O status da China como "fábrica do mundo" se consolidou com sua entrada na organização internacional global que trata das regras do comércio entre as nações, a Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001. Mas, na virada do século, o Partido Comunista Chinês já planejava o próximo passo.
Havia o temor de que o país caísse na chamada "armadilha da renda média", quando uma nação em ascensão deixa de oferecer mão de obra barata, mas ainda não tem capacidade de inovação para produzir bens e serviços de alto valor agregado.
Para evitar isso, a China começou a investir nas chamadas "indústrias estratégicas emergentes", termo usado oficialmente pela primeira vez em 2010. O foco incluía tecnologias verdes, como veículos elétricos e painéis solares.
À medida que a mudança climática ganhava destaque na política ocidental, a China mobilizava recursos inéditos para impulsionar esses novos setores.
Hoje, a China é líder global em energias renováveis e veículos elétricos, além de controlar quase todo o fornecimento de terras raras necessárias para a fabricação de chips e o desenvolvimento de inteligência artificial (IA).
A dependência mundial desses recursos dá à China uma posição de poder. A recente decisão de restringir exportações de terras raras levou Trump a acusar a China de tentar "manter o mundo como refém".
Embora as "forças estratégicas emergentes" tenham sido incorporadas ao plano quinquenal de 2011, a tecnologia verde já havia sido identificada como potencial motor de crescimento e poder geopolítico pelo então líder chinês Hu Jintao, no início dos anos 2000.
"O desejo de tornar a China mais autossuficiente em economia, tecnologia e liberdade de ação vem de longa data, faz parte da própria essência da ideologia do Partido Comunista Chinês", explica Thomas do Instituto de Políticas da Sociedade Asiática.
2021-2025: 'Desenvolvimento de alta qualidade'
Isso pode explicar porque nos planos quinquenais recentes, a China passou a priorizar o chamado "desenvolvimento de alta qualidade", conceito introduzido formalmente por Xi Jinping em 2017.
A meta é desafiar o domínio tecnológico dos EUA e colocar a China na linha de frente do setor.
Casos de sucesso doméstico, como o aplicativo de vídeos TikTok, a gigante de telecomunicações Huawei e o modelo de inteligência artificial DeepSeek ilustram o avanço chinês.
O progresso da China, no entanto, é visto com desconfiança por países ocidentais, que a consideram uma ameaça à segurança nacional. As proibições e restrições a tecnologias chinesas afetaram milhões de usuários e provocaram disputas diplomáticas.

Crédito,Grigory Sysoev/RIA Novosti/Pool/Anadolu via Getty Images
Até agora, o avanço tecnológico chinês dependeu de inovações americanas, como os semicondutores avançados da Nvidia. Com a proibição de venda desses componentes para o país imposta pelo governo Trump, é provável que o conceito de "desenvolvimento de alta qualidade" evolua para o de "novas forças produtivas de qualidade", novo lema introduzido por Xi em 2023, que desloca o foco para o orgulho nacional e a segurança do país.
Isso significa colocar a China na linha de frente da produção de chips, da computação e da inteligência artificial, sem ser dependente da tecnologia ocidental, além de ser imune a embargos.
A autossuficiência em todos os setores, especialmente nos níveis mais altos da inovação, deve ser um dos pilares centrais do próximo plano quinquenal.
"A segurança nacional e a independência tecnológica são hoje a missão definidora da política econômica da China", explica Thomas, do Instituto de Políticas da Sociedade Asiática. "Mais uma vez, isso remete ao projeto nacionalista que sustenta o comunismo chinês, garantindo que o país nunca mais seja dominado por potências estrangeiras."









