segunda-feira, 26 de junho de 2017

Temer é denunciado por corrupção passiva


O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira (26) uma denúncia contra o presidente Michel Temer e ex-deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) pelo crime de corrupção passiva.
Com a denúncia, fica formalizada a acusação contra Temer, que será julgada pelo Supremo se Câmara dos Deputados autorizar
Professor Edgar Bom Jardim - PE

FAB: Avião com cocaína decolou de fazenda que pertence a Blairo Maggi

Ministro de Temer 
Blairo Maggi
Maggi é um dos mais ricos empresários do agronegócio no Brasil.


A Força Aérea Brasileira (FAB) interceptou no domingo 25 um avião bimotor, na região de Aragarças (GO), em uma ação que culminou na apreensão de 653 quilos de cocaína. De acordo com a FAB, o avião, de matrícula PT-IIJ, decolou da Fazenda Itamarati Norte, no município de Campo Novo do Parecis (MT) com destino a Santo Antonio do Leverger (MT). A Fazenda Itamarati Norte pertence ao senador licenciado e ministro da Agricultura, Blairo Maggi (PP).
A assessoria de imprensa do Grupo Amaggi, que pertence ao ministro e a seus familiares, confirmou por telefone a CartaCapital que uma fazenda com "o mesmo nome" do divulgado pela FAB pertence ao grupo, e disse que preparava nota oficial.
Em nota oficial (confira a íntegra no fim do texto), a Amaggi negou ter qualquer relação com a aeronave e afirmou que não emitiu autorização de pouso ou decolagem para a mesma. Além disso, argumentou que a região de Campo Novo do Parecis é "vulnerável à ação de grupos do tráfico internacional de drogas, dada a sua proximidade com a fronteira do estado de Mato Grosso com a Bolívia" e que já auxiliou a Polícia Federal em uma ação similar em outra fazenda da região.
No site da Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso, há um processo de licenciamento de um aeródromo na Fazenda Itamarati Norte, em Campo Novo do Parecis, que tem como proprietário o Grupo Amaggi.
A assessoria de imprensa do Ministério da Agricultura encaminhou a solicitação de informações de CartaCapital a um assessor pessoal de Maggi, que repassou o contato à assessoria do Grupo Amaggi. Segundo reportagem da revista Globo Rural, a Fazenda Itamarati Norte foi adquirida em junho de 2010 pelo Grupo Amaggi. A propriedade foi arrendada por oito anos do empresário Olacyr de Moraes, conhecido como "Rei da Soja".
Consulta pela matrícula do bimotor no sistema do Registro Aéreo Brasileiro (RAB), da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), mostra que a aeronave pertence a Jeison Moreira Souza.
Em uma segunda nota, publicada nesta segunda-feira 26, a FAB afirmou que a informação de que o bimotor decolou da Fazenda Itamarati Norte foi fornecida pelo próprio piloto, durante a abordagem. "A confirmação do local exato da decolagem fará parte da investigação conduzida pela autoridade policial", afirmou a Força Aérea.
A interceptação
A interceptação da aeronave ocorreu durante a Operação Ostium, dedicada a coibir ilícitos transfronteiriços, na qual atuam em conjunto a FAB, a Polícia Federal e órgãos de segurança pública.
A interceptação, feita por uma aeronave A-29 Super Tucano, teve início às 13h17 de domingo. Segundo a FAB, o piloto seguiu os protocolos das medidas de policiamento do espaço aéreo e interrogou o piloto do bimotor. Na sequência, determinou a mudança de rota e o pouso obrigatório no Aeródromo de Aragarças (GO).
Inicialmente, afirma a FAB, a aeronave interceptada seguiu as instruções da defesa aérea, mas em vez de pousar no aeródromo indicado, arremeteu. O piloto da FAB, diz a Aeronáutica, novamente comandou a mudança de rota e solicitou o pouso, porém o avião não respondeu.
Avião
Avião com 500 quilos de cocaína é interceptado em Jussara
A partir desse momento, afirma a FAB, o bimotor foi classificado como hostil. O A-29 executou um tiro de aviso, para forçar o piloto da aeronave interceptada a cumprir as determinações da defesa aérea, e voltou a determinar o pouso obrigatório. O avião interceptado novamente não respondeu e pousou na zona rural do município de Jussara (GO).
De acordo com a Polícia Militar de Goiás, os ocupantes da aeronave fugiram após um pouso na área rural do município. Um helicóptero da PM-GO foi acionado e realizou buscas no local. Inicialmente, a FAB apontou que a carga apreendida era de 500 quilos de cocaína, mas a PM atualizou o número, elevando para 653 quilos. Ainda segundo a PM do estado, a carga está avaliada em 13 milhões de reais.
Segundo a FAB, o avião seria removido para o quartel da Polícia Militar de Goiás em Jussara. A droga apreendida será encaminhada para a Polícia Federal em Goiânia.
O que disse a Amaggi
A respeito das informações divulgadas pela Força Aérea Brasileira no último domingo 25, dando conta da interceptação de uma aeronave carregada de entorpecentes que teria decolado de uma pista localizada na Fazenda Itamarati, arrendada pela Amaggi, a companhia vem a público informar que:
a) Tomou conhecimento do caso por meio da imprensa e aguarda o desenrolar das investigações sobre a propriedade da aeronave e as circunstâncias exatas em que ela – conforme afirma a FAB – teria pousado na Fazenda Itamarati e decolado a partir de uma de suas pistas;
b) A empresa não tem qualquer ligação com a aeronave descrita pela FAB e não emitiu autorização para pouso/decolagem da mesma em qualquer uma de suas pistas;
c) Localizada em Campo Novo do Parecis, a parte arrendada pela Amaggi na Fazenda Itamarati conta com 11 pistas autorizadas para pouso eventual (apropriadas para a operação de aviões agrícolas, o que não demanda vigilância permanente) localizadas em pontos esparsos de 54,3 mil hectares de extensão;
d) A região de Campo Novo do Parecis tem sido vulnerável à ação de grupos do tráfico internacional de drogas, dada a sua proximidade com a fronteira do estado de Mato Grosso com a Bolívia;
e) Tal vulnerabilidade acomete também as fazendas localizadas na região. Em abril deste ano, a Amaggi chegou a prestar apoio a uma operação da Polícia Federal (PF), quando a mesma foi informada de que uma aeronave clandestina pousaria com cerca de 400 kg de entorpecentes (conforme noticiado à época) em uma das pistas auxiliares da fazenda. Na ocasião, a PF realizou ação de interceptação com total apoio da Amaggi, a qual resultou bem-sucedida.
A Amaggi se coloca à disposição das autoridades para prestar todo apoio possível às investigações do caso.
Professor Edgar Bom Jardim - PE

Lula lidera em Pesquisa do Datafolha


A mais recente rodada da pesquisa Datafolha para a eleição presidencial mostra que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) continua sendo o nome mais forte para as eleições de 2018. Em todos os cenários em que aparece, o petista tem ao menos 29% de intenções de voto, sempre com o dobro do segundo colocado.
Em simulações de segundo turno, Lula teria vantagens significativas contra os tucanos Geraldo Alckmin e João Doria e contra o deputado Jair Bolsonaro (PSC). O juiz Sergio Moro e a ex-senadora Marina Silva (Rede) aparecem empatados com Lula, sendo que o magistrado surge numericamente à frente.
Com o senador Aécio Neves (MG) atolado em denúncias de corrupção, o Datafolha testou apenas dois candidatos do PSDB em simulações de primeiro turno – o governador Geraldo Alckmin e o prefeito João Doria, ambos de São Paulo.
Com Alckmin, Lula teria 30%, seguido por Bolsonaro (16%) e Marina (15%), Alckmin (8%), Ciro Gomes, do PDT, com 5%. O ex-deputados Luciana Genro (PSOL) e Eduardo Jorge (PV) e o senador Ronaldo Caiado teriam 2% cada um. Outros 20% votariam em branco, nulo ou ainda não sabem.
Com Doria, a situação é semelhante. Lula manteria os 30% e Bolsonaro e Marina ficariam empatados com 15% na segunda colocação. Doria aparece com 10% e Ciro Gomes com 6%. Luciana Genro, Eduardo Jorge e Caiado seguem com 2%.
A entrada do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa na corrida embolaria a disputa pelo segundo posto. Em um dos cenários, Lula continuaria líder com 29%, seguido por Marina e Bolsonaro (15% cada). Barbosa teria 11% e Alckmin, 8%. Luciana Genro, Eduardo Jorge e Caiado seguem com 2%, enquanto 16% dizem votar branco, nulo ou ainda não saberem.
Em outro cenário com o ex-ministro do STF, Lula fica com 29%, seguido por Marina (15%), Bolsonaro (13%), Barbosa (10%) e Doria (9%). Luciana Genro e Eduardo Jorge manteriam 2% e Caiado ficaria com 1%. Outros 17% votariam branco, nulo ou não sabem.
Barbosa vem sendo cortejado por diversos partidos, mas ainda não anunciou candidatura. Uma das legendas que o procurou é a Rede, de Marina Silva, que cogita colocar os dois na mesma chapa.
Em uma simulação com Moro candidato, o juiz, responsável pela Operação Lava Jato em primeira instância, ficaria em segundo lugar, com 14%, empatado com Marina (14%) e Bolsonaro (13%). Alckmin teria 6%. Genro e Jorge manteriam 2% e Caiado ficaria com 1%. Outros 17% votariam branco, nulo ou não sabem.
Como o ex-presidente Lula responde a diversos inquéritos na Lava Jato e pode ser barrado do pleito caso sofra uma condenação em segunda instância, o Datafolha testou outro petista em um dos cenários, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad. Ele teria apenas 3% de intenção de voto, atrás de Marina Silva (22%), Bolsonaro (16%), Joaquim Barbosa (13%), Alckmin (10%) e Luciana Genro (4%). Sem Lula, o número de indecisos e votos brancos e nulos iria a 28%.
Segundo turno
No segundo turno, Lula continua mostrando força. O ex-presidente aparece mais de dez pontos à frente de Alckmin (45% a 32%), Doria (45% a 34%) e Bolsonaro (45% a 32%). Contra Marina Silva, ambos teriam 40%. Em uma disputa entre Moro e Lula, o juiz iria a 44%, contra 42% do petista, diferença dentro da margem de erro da pesquisa, de 2 pontos percentuais para cima ou para baixo.
Marina Silva venceria Bolsonaro no segundo turno (49% a 27%), enquanto Ciro Gomes estaria empatado com Alckmin (31% a 34% do tucano) e Doria (34% a 32% do tucano).
O Datafolha ouviu 2.771 eleitores em 194 municípios entre 21 e 23 de junho. 
Carta Capital
Professor Edgar Bom Jardim - PE

Jovens violentos abandonam a escola mais cedo, diz pesquisador



Crédito: Shutterstock

A Educação brasileira de hoje tem índices melhores que há uma década. Todas as etapas têm aumento da taxa de aprovação e redução do abandono em relação a 2007. Esses dados foram divulgados nesta quarta pelo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) com base nas informações dos Censos escolares de 2014 e 2015. Mas, apesar da evolução em várias áreas, o resultado ainda é preocupante.
Os piores índices estão no Ensino Médio: a média de evasão escolar na etapa é de 11,2%, e com 12,9% só no 1º ano. No Ensino Fundamental, os números são um pouco mais agradáveis, com média de 2,1% de abandono nos anos iniciais e 5,4 nos anos finais.
Apesar de baixa quando comparada com o Ensino Médio, um estudo do sociólogo Marcos Rolim mostra que a evasão na transição do Ensino Fundamental 1 para o Ensino Fundamental 2 pode ser especialmente danosa. Ele analisou as respostas de 111 pessoas, e identificou um fator em comum a todas que se envolveram com o crime: o abandono aos estudos muito cedo. “Os mais violentos tinham saído da escola muito precocemente, com 10, 11, 12 anos. Não havia uma exceção”, afirma o pesquisador.
Marcos estuda segurança pública há mais de 20 anos. Baseado em uma experiência norte-americana registrada no livro Why they kill (Por que eles matam), do jornalista Richard Rhodes, ele decidiu repetir a investigação com brasileiros, que registrou no livro A formação de jovens violentos – Estudo sobre a etiologia da violência extrema. A ideia inicial era entrevistar um grupo de jovens, homens, envolvidos com atos de violência extrema. O pesquisador conversou com 17 que estavam na Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase), antiga Febem do Rio Grande do Sul, alguns inclusive com múltiplos homicídios. A intenção era saber mais sobre suas vidas anteriores aos crimes cometidos e à prisão.
Os jovens também indicaram um colega de infância que não tinha se envolvido com o crime, para Marcos buscar padrões e diferenças nessas histórias que pudessem explicar a “inclinação violenta” (que Marcos chama de “disposicionalidade”, por acreditar que é fruto tanto de questões internas quanto sociais) que certas pessoas de um mesmo grupo social têm, enquanto outras não.
“Repeti as entrevistas com onze desse segundo grupo. Como eram poucos, não consegui chegar a grandes conclusões, então ampliei a amostra aplicando um mesmo questionário para jovens presos por crimes violentos e não violentos, e outros da periferia de Porto Alegre, que não tinham nenhuma relação com o crime”, explica Marcos. Veja a seguir suas descobertas.


O pesquisador Marcos Rolim (Divulgação / Ramon Moser)

Quais foram as principais conclusões da sua pesquisa?
Todos os jovens eram pobres, moradores de áreas de exclusão, e muitos viveram situações de violência na família. Os mais violentos tinham saído da escola muito precocemente, com 10, 11, 12 anos. Não havia uma exceção. Eu imaginava, por exemplo, que os jovens que matam são de famílias violentas, desestruturadas. Mas não, há aqueles que vêm de famílias em que tudo em tese estava correndo bem, até a saída da escola. Quando olhei para o grupo maior, vi que a baixa escolarização e o treinamento para o crime foram os dois fatores que mais apareceram em comum àqueles que tinham mais disposição para a violência. O treinamento é quanto tem a presença de alguém mais velho que introduz esse jovem no mundo do crime.
Esses traficantes mais velhos fariam o papel de professor?
Exatamente. A ruptura com a escola desvinculou o menino do único senso de grupo que ele tinha. O traficante que o recebe é poucos anos mais velho do que o iniciante, mas faz as vezes de professor, instrui, socializa nos valores do novo grupo.
Quais foram os motivos que os jovens deram para terem saído da escola?
Foram três motivos principais. Havia uma sensação de que eles eram incapazes de aprender. Eles falavam “Eu sou burro mesmo, não dou pra isso, repetia de ano”. Essa ideia de que a culpa é deles, de que há algo de errado neles, é uma visão equivocada, porque é obrigação da escola ensinar. Havia os que sofriam bullying pela pobreza. Todos eram pobres na escola, mas alguns eram ainda mais pobres do que os outros: usavam sapato furado, camisa rasgada, e eram humilhados pelos demais. Eles acabavam saindo para evitar essa humilhação, inclusive entravam para o crime na tentativa de se vingar disso. Também teve quem falou que a escola é um espaço desinteressante, que era um saco estar lá, os professores eram chatos. E tenho a impressão de que há uma distância enorme entre o mundo em que os jovens vivem, da internet, da conectividade, e o mundo em que a escola vive.
Como a escola pode concorrer com o universo do crime?
Talvez a única chance de a escola disputar esse espaço é com relação à autoria de uma pessoa. Jovens extremamente pobres têm a sensação de serem nada, e isso no fundo corresponde muito à realidade social brasileira. De fato, no Brasil, ele é nada, reconhecido em lugar nenhum. O tráfico oferece um espaço de pertencimento, onde eles são valorizados. E quando faz parte do grupo, tem uma arma na cintura, pode comprar roupas de grife, ele passa a ser alguém admirado na vila onde mora. O máximo que a escola oferece é uma promessa futura, com um cotidiano cheio de tarefas burocráticas, sabe? Acho que essa preocupação da autoria na escola, como ele pode ser alguém, o que ele pode produzir, realizar, como esportes, poesia, hip hop, artes, deve ser central.
A evasão escolar deveria virar assunto de segurança pública?

Teríamos que fazer um estudo mais aprofundado sobre evasão, mas a minha impressão é de que quanto mais cedo a criança sai da escola, maiores as chances de se envolver com o crime. Nas prisões norte-americanas, há um grupo muito pequeno de pessoas que terminaram o Ensino Médio. A grande maioria não terminou. Aqui, o corte é ainda mais baixo. A grande maioria da população carcerária brasileira não terminou o Ensino Fundamental. A quantidade de escolarização é muito importante para permitir que o sujeito escape dessas dinâmicas ilegais de sobrevivência, que podem levar à prisão. Não acho que a escola deva ser assunto de segurança, mas a pesquisa deixa claro que o desempenho da escola acarreta consequências na segurança pública. A evasão escolar é um tema central para se pensar a violência do Brasil, mas não deve ser só isso. O ideal seria ter evasão zero como nossa meta. Precisamos entender e combater os motivos pelos quais esses meninos estão saindo da escola.
Nova Escola.
Professor Edgar Bom Jardim - PE

Antonio Palocci é condenado a 12 anos de prisão


O ex-ministro Antonio Palocci (PT) foi condenado a 12 anos de prisão pelo juiz Sergio Moro nesta segunda (26). Ministro da Fazenda na gestão Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e da Casa Civil no mandato de Dilma Rousseff (PT), Palocci foi condenado na primeira instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Palocci está preso desde setembro de 2016, acusado de participação em esquema de corrupção envolvendo contratos de sondas com a Petrobras e com a empreiteira Odebrecht. O ex-ministro negocia uma delação premiada com a força-tarefa da operação Lava Jato.

Sergio Moro também condenou outras 12 pessoas, incluindo Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empresa, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e os marqueteiros João Santana e Mônica Moura.
Folha de Pernambuco
Professor Edgar Bom Jardim - PE

sábado, 24 de junho de 2017

O que está por trás do surpreendente aumento no número de mulheres na cracolândia


Retratos de frequentadoras da cracolândiaDireito de imagemADRI FELDEN/ARGOSFOTO
Image captionFrequentadoras da cracolãndia paulistana em retratos da fotógrafa Adri Felden; percentual de mulheres na região dobrou em um ano

Em novembro de 2016, a fotógrafa Adri Felden recebeu um convite da Prefeitura de São Paulo para realizar um trabalho voluntário na cracolândia: fazer retratos de dependentes químicas da região.
"Antes de aceitar, fui conhecer a cracolândia", conta Felden, de 50 anos, lembrando que a presença de meninas e mulheres na área, algumas delas grávidas, foi o que mais chamou sua atenção.
Segundo pesquisa divulgada neste mês pela Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado, a percepção de Adri está certa: o percentual de mulheres na cracolândia mais que dobrou em um ano: de 16% em 2016 para 34% em 2017.
Enquanto no ano passado 119 usuárias teriam circulado diariamente pela região que concentrou durante anos uma feira de drogas a céu aberto, neste ano a estimativa é de 642 mulheres.
O estudo mostrou que o tráfico está cada vez mais organizado na cracolândia e que traficantes têm privilegiado a cooptação de mulheres para consumo da droga e exploração. Outro ponto identificado foi a associação do tráfico na região à prostituição e ao abuso sexual de crianças, adolescentes e mulheres.
"Mulheres que antes iam somente comprar droga acabaram sendo recrutadas pelo tráfico. Muitas delas passaram a ser exploradas, inclusive sexualmente. É impressionante como a cracolândia conseguiu manter as mulheres na região, tanto para consumo como trabalho", aponta o secretário de Desenvolvimento Social de São Paulo, Floriano Pesaro (PSDB).
Especialistas envolvidos no estudo apontam que as mulheres são mais vulneráveis do que os homens na cracolândia: chegam com laços sociais e familiares rompidos e, por isso, têm mais dificuldade em procurar e receber ajuda.
A pesquisa entrevistou 139 usuários nos períodos entre abril e maio de 2016 e abril e maio de 2017. Foi o primeiro estudo a traçar características sociodemográficas e de vulnerabilidade social da população dessa região.

Mulher conduzida por policial em ação na cracolândiaDireito de imagemREUTERS
Image captionMulher é conduzida por policial em ação na cracolândia em maio deste ano; pesquisa identificou cooptação de usuárias pelo tráfico

"Foi uma surpresa identificar esse número de mulheres na região e mais surpresa ainda perceber que a violação de direitos humanos em dependentes químicas é maior do que em homens", afirmou Pesaro.
Mulheres estão mais expostas à violência - e ao domínio de traficantes - porque muitas vezes o corpo feminino é visto como moeda de troca por drogas.
"Constatamos trabalho infantil e análogo à escravidão, com maior incidência sobre o sexo feminino. Há mulheres jovens, mas também muitas idosas são exploradas ali. Também encontramos mulheres em cárcere privado e até reféns", relata o secretário.
De acordo com a pesquisa do governo, a população de usuários frequentes da cracolândia saltou de 709 pessoas em 2016 para 1.861 em 2017 - um aumento de 162%.
"Um dos motivos desse aumento foi a região ter ficado mais fértil para compra e venda de drogas", avalia Pesaro.

Preconceitos

Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador do Recomeço, programa anticrack do governo estadual, o preconceito é mais intenso contra uma mulher viciada em crack do que contra um homem, o que dificulta uma eventual reabilitação.
"É muito mais difícil para a mulher aderir ao tratamento, em função dos estigmas e julgamentos morais, e mais provável que não se sintam confortáveis com o tratamento, por serem minoria", afirma.
"Os laços familiares se perdem, ela se dissocia mais rápido dos amigos por causa dos julgamentos, perde a guarda dos filhos. Para sobreviver, ela substitui laços domésticos pelo grupo que encontra na cracolândia", completa.
Há também agravantes fisiológicos. Do ponto de vista médico, a dependência química é mais severa em mulheres, por fatores hormonais.
"É muito mais difícil para uma mulher se manter abstinente do que para um homem. Também é mais fácil para elas desenvolverem a dependência química", afirma Laranjeira.

Frequentadora da cracolândiaDireito de imagemADRI FELDEN/ARGOSFOTO
Image captionMulher retratada na cracolândia paulistana; dependentes ficam mais expostas à violência na região, aponta levantamento

A origem dessas mulheres dificulta uma possível saída da vida na cracolândia: apenas 56% são de São Paulo e região metropolitana. Outras 19% declararam vir do interior paulista, 21% de outro Estado e 2% de outros países.
Para a fotógrafa Felden, que aceitou o convite da gestão municipal anterior e produziu um ensaio fotográfico com 21 dependentes químicas, de 20 a 53 anos, ver a situação daquelas mulheres de perto trouxe "uma desolação profunda".
Na época do ensaio, os dependentes químicos ocupavam uma esquina na região da Luz, centro de São Paulo. O fluxo, como era conhecida a concentração de usuários e traficantes, era tão intenso que impedia a passagem de veículos.
Desde o último dia 21 de maio, duas ações policiais de combate ao tráfico na região dispersaram os usuários, que se espalharam por outros pontos da área central da cidade, mas tem se reaproximado da cracolândia original.

Violência de gênero

O levantamento indicou que 44% das mulheres da região tinham histórico de abuso físico ou sexual na infância; 70% declararam já terem sido vítimas de violência na cracolândia.
Felden, que conversou com dependentes químicas para produzir o ensaio fotográfico, diz que histórias de violência contra as usuárias eram comuns.
"Uma das mulheres que fotografei tinha acabado de sofrer um estupro. Ela tem 53 anos e já havia sofrido violência sexual na infância", relata a fotógrafa. "Outra, de 20 anos, analfabeta e moradora de rua, já tinha feito seis abortos e, na última vez que a vi, no Natal, havia levado uma facada de seu companheiro no joelho."
"Ali você tem, em um único território, todas as violações de direitos humanos, sendo o grupo das mulheres e crianças o mais vitimado e mais esquecido pelas políticas públicas até agora", afirma Pesaro.

Frequentadora da cracolândiaDireito de imagemADRI FELDEN/ARGOSFOTO
Image captionEnsaio fotográfico se tornou injeção de autoestima em dependentes 'para que se vissem como mulheres fortes', afirma fotógrafa

Gravidez e sífilis

A pesquisa mostrou também que mais da metade das mulheres que engravidaram na cracolândia nunca quiseram fazer exame pré-natal. Todos os filhos das dependentes químicas da região nasceram abaixo do peso, e 67% nasceram prematuros.
No momento da entrevista, 14,3% das mulheres estavam grávidas e 21% já declararam que já tinham praticado aborto.
"É fato que quando pensamos em dependentes químicos, sempre pensamos em homens, não em mulheres. Mas elas estão ali e requerem diferentes cuidados e tratamentos que um homem", alerta Laranjeira, para quem o pré-natal deve ser um serviço essencial na cracolândia.
"Gravidez precoce e não planejada, aumento de sífilis sem precedentes - talvez a maior epidemia dos últimos anos - HIV, hepatite e tuberculose são problemas atuais da cracolândia", acrescenta Pesaro.
O secretário diz que, diante dessas constatações, mulheres estão sendo priorizadas nas unidades de atendimento emergencial a dependentes, montadas pela prefeitura na região central.
"Há também um trabalho de convencimento, porque muitas mulheres escondem que têm crianças ou que estão grávidas, com medo de perder os filhos", conta o secretário.

Ação policial na cracolândia em 21 de maioDireito de imagemREUTERS
Image captionMulheres em abordagem durante ação policial na cracolândia em maio

Para Laranjeira, a maternidade pode ser uma oportunidade para a mulher deixar o vício. "A ajuda que devemos oferecer a uma grávida nessa situação não é tirar a criança dela. É preciso oferecer um tratamento da dependência química que permita a ela ficar com o filho e, depois, ajudá-la a refazer a vida."

Autoestima

Felden conta que produzir o ensaio com as dependentes não foi fácil. Era preciso conquistar confiança e retirá-las da concentração de usuários. Aos poucos e com conversa, conta, as mulheres começaram a vir, trazendo brincos e até maquiagem.
Ao ver o resultado do trabalho, Felden revelou as fotos e voltou à região para entregar as imagens às 21 mulheres que registrou.
"A ideia era apenas fazer um trabalho voluntário com mulheres da cracolândia, mas esse ensaio se tornou um estímulo de autoestima para que se vissem como mulheres fortes. Uma das mulheres me contou depois que tem tentado reduzir os danos do vício depois que se viu bonita", relata a fotógrafa.
Professor Edgar Bom Jardim - PE

Descole-se: os anjos usam motos velozes

Confiar nas utopias se tornou uma crença, pois os lutadores estão caindo na lona. Proclamaram-se revoluções, refizeram-se liberdades, esconderam-se violências. A chave da porta principal está perdida. A sociedade aumenta sua população sem encontrar regências harmoniosas para sua administração. Sacudiram os sentimentos no ar, em nome de razões ditas esclarecedoras. Os sistemas se implantaram buscando o escudo das palavras indiscutíveis. Mas se vive no balanço do trapézio no circo obscuro da hipocrisia. Temos destinos ou possibilidades de desmanchar os estragos? A rebeldia não se foi, mas se fragiliza.
Observe como as lideranças cínicas mudam suas armaduras. É importante não cair na ordem e no progresso. O século XIX produziu críticas aos valores decadentes. Não esqueça, porém, que o capitalismo se fortalecia e o utilitarismo ampliava seus espaço. A contradição não é uma exceção, nem mora em tempos remotos e tardios. Prometeu desafiou os deuses, os operários são explorados, os políticos renegam a ética, a imprensa abusa do sensacionalismo. As serpentes habitam o mundo com esperteza.
Ver a história com uma escada que leva ao céu é uma mistificação vendida e consagrada pelos que desprezam o humano. As quedas acontecem, os sonhos não se largam, os gritos registram agonias. Mesmo que os impasses empurrem para o abismo, há planícies que não foram conquistadas. Há Doria, Moro, FHC, Suplicy, Cunha e tantos outros. A multiplicidade é um sinal de insegurança. Nem todos estão no barco do conformismo,  nem inventam reformas opressoras. No entanto, o discurso de felicidade é traiçoeiro e convence.
A incompletude mostra que a cultura agiliza soluções para superá-la com velocidade. Não há homogeneidade que  garanta  projetos de mudanças efetivas na sociabilidade. Tudo está com uma imagem de ruínas. Ande pelas ruas, veja os programas de TV, escute as falas dos governadores, analise a presença da polícia no combate às drogas. Você tem escolhas, a liberdade brinca, mas com cercos permanentes. A incompletude sinaliza que o absoluto é uma lenda sinistra. Aprisiona a imaginação e protege militâncias atormentadas.
A história não pode se desfazer dos limites. Eles trazem as regras. Elas dependem da nossa s ações. Hannah não deixa de ressaltar a condição humana, de saltar impasses.Os conflitos agudizam perdas. Visite o passado: os romanos dominaram o mundo, o Vietnam derrotou os Estados Unidos, as religiões promoveram guerras, o terrorismo mata inocentes. Quem se encontra com a verdade? Pensar uma história com uma paz firmada, sem hesitações, seria sair da órbita. A luta cotidiana ajuda a diminuir as dores. O sempre e o nunca são palavras perigosas num mundo de suspeitas e de profecias. Descole-se, peça carona nas motos dos anjos.
Paulo Rezende
Professor Edgar Bom Jardim - PE

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Conselho de Ética do Senado arquiva pedido de cassação contra Aécio “por falta de provas”

Senador Randolfe vai recorrer da decisão do Conselho de Ética 

Reprodução
O senador foi alvo de buscas e apreensões em inquérito que tramita contra ele no STF

O presidente do Conselho de Ética do Senado, João Alberto Souza (PMDB-MA), arquivou, nesta sexta-feira (23), o pedido de cassação do senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG).”Eu não vejo motivo, não me convence, pedir cassação de um senador eleito por milhões de votos em função de uma armação feita com o senador”, declarou o presidente do Conselho de Ética ao site G1.
Na decisão, comunicada por meio de nota à imprensa, João Alberto diz ter indeferido “por falta de provas”. Apesar de sua decisão, os membros do conselho têm dois dias úteis para recorrer, mas precisa de apoio de pelo menos cinco integrantes.
A representação por quebra de decoro parlamentar foi apresentada há quase um mês contra o senador tucano, investigado por crimes como corrupção e associação criminosa e impedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de exercer seu mandato.
O protocolo da ação contra Aécio foi feito na Secretaria de Apoio a Órgãos do Parlamento em 18 de maio por representantes da Rede e do Psol – o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e os deputados Alessandro Molon (Rede-RJ) e Ivan Valente (Psol-SP). O Conselho de Ética estava desativado há quase cinco meses desde o início do ano. Há 17 dias, João Alberto foi eleito para a presidência do colegiado pelo sexto biênio consecutivo e, na ocasião, disse que daria um posicionamento sobre o pedido de processo em 48 horas.
As complicações de Aécio se agravaram com a divulgação da gravação em que um dos donos do Grupo JBS, Joesley Batista, flagra o tucano pedindo-lhe R$ 2 milhões. O dinheiro, de acordo com a delação de Joesley, já homologada no Supremo, foi repassado a um primo de Aécio, que foi preso na Operação Patmos – mas já está em prisão domiciliar por decisão do Supremo. A entrega foi registrada em vídeo pela Polícia Federal, que rastreou o caminho da encomenda e descobriu que o montante foi depositado na conta de uma empresa do filho do senador Zezé Perrella (PMDB-MG), aliado de Aécio na política mineira. O tucano terá pedido de prisão julgado pelo STF nos próximos dias.
Além da abertura do processo de cassação de Aécio, a representação protocolada no Conselho de Ética requereu cópia integral de provas em poder do STF, bem como a oitiva dos investigados. Entre eles, além de Aécio e Zezé, os irmãos Wesley e Joesley Batista, donos da JBS; o diretor de Relações Institucionais da empresa, Ricardo Saud, apontado como intermediador dos flagrantes; e o servidor comissionado Mendherson Lima, lotado no gabinete de Perrella, responsável pelo transporte de uma parte do dinheiro.
Confira íntegra da nota emitida pela assessoria do senador João Alberto:
O senador João Alberto Souza, presidente do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado Federal, informou nesta sexta- feira, 23, que não admitiu a representação em desfavor do senador do PSDB- MG, Aécio Neves.
“Indeferi por falta de provas”, afirmou o senador.
Segundo o senador, os membros do conselho têm dois dias úteis para recorrer com o apoiamento de pelo menos 5 integrantes.
Congresso em Foco./Senador Randolfe
Professor Edgar Bom Jardim - PE

Nas festas juninas, diz Alceu, a Música Tem que Ser o Forró

Alceu Valença, só forró no São João / foto: Divulgação/Yanê Montenegro
Alceu Valença, só forró no São João
foto: Divulgação/Yanê Montenegro
JOSÉ TELES
"Campina Grande se faz tão formosa/ Caruaru está com todo tesão/ a minha vida é um palco sobre rodas/ na tournée nordestina/ do São Pedro e São João", os versos de Tournée Nordestina (Lua do Lua) estão sendo postos em prática pelo autor da música, Alceu Valença, que se apresenta hoje em Jaboatão dos Guararapes e amanhã em Arcoverde, na base do forró é bom e ele gosta, e entende.
 Gravou com Luiz Gonzaga, é parceiro de Dominguinhos e aprendeu a respeitar a festa desde menino, em São Bento do Una:
 "Se quiser falar de forró pra mim, quero dizer que Juventino, meu tio, tocava oito baixos, meu avô tocava viola. Nelson Valença, primo do meu pai, era parceiro de Gonzaga. Quero lhe dizer que Luiz Gonzaga quando me viu tocando, com meu grupo, me convidou pra tomar café na casa dele lá em Novo Exu. Conheci as coisas também da feira de São Bento do Una, os emboladores, os cantadores. Se você perder a raiz total, você dançou. O frevo não é samba, nem o forró é rock and roll", conta Alceu.
Com isso, ele quer dizer que no período junino se atém a um repertório ligado à época. "Neste show que estou fazendo agora, começo com Baião, Vem Morena, A Cantiga do Sapo. Depois canto Pagode Russo, Sala de Reboco, que gravei com Lucy Alves, e interpreto de uma maneira mais gonzaguiana. Aí vem Xote das Meninas, Sabiá e Girassol (com ritmo de forró), Coração Bobo, Pelas Ruas que Andei, que é a Briga do Cachorro com a Onça, é o pife elétrico, depois Cabelo no Pente. Termino com Tropicana, que é um xote. Na época que gravei, eu tinha vindo de Cuba e botei uma tumbadora na gravação, ela ficou meio tropicalizada. Pessoas da plateia pedem músicas e eu canto. Aí já não é forró, pode ser Anunciação, La Belle de Jour. Mas sempre respeito a festa. No Carnaval eu canto frevo", diz Alceu Valença.
 Ele joga no ar uma pergunta e uma provocação: "Na Marquês de Sapucaí toca outra coisa fora samba? Quando homenagearam Miguel Arraes tocaram frevo?" Ele mesmo se encarrega de responder: "Não tenho preconceito contra música nenhuma. Acho que no São João deveria ter uma noite pro forró de verdade, outra pra outro tipo de música. Reginaldo Rossi era uma maravilha como brega, mas tinha a ver com forró? Roberto Carlos que é um grande cantor, o Rei, não tem nada a ver com o Carnaval de Pernambuco. Esta história de multicuralismo, tudo bem, mas cada coisa no seu lugar. Nada de fechamento. Mas termina o Carnaval pernambucano sendo igual ao de qualquer canto".
 Amanhã, Alceu Valença canta no palco principal em Arcoverde, entre um dupla sertaneja, Ycaro & Vitório, e uma banda de fuleiragem, Solteirões do Forró. Ele confessa que não sabe da programação de nenhuma cidade onde está se apresentado. Leva para lá o seu show junino: "Eu faço meu show, mostro meu lado agrestino sertanejo, meu lado gonzaguiana, dominguiniano, são­bentense (em meio à conversa, canta um aboio com versos improvisados). A cultura não é fechada, mas a indústria do entretenimento procura fechá­ la. Eu estava outro dia numa cidade aqui em Pernambuco, tinha uma dupla cantando, perguntei se eram do Paraná. Disseram que eram daqui. Já têm até o sotaque. Acho que tem que se cultuar a tradição. Mas ela vai se modificando, mas aos poucos".

 Enfatiza a asserção cantando versos de Que Grilo Dá (Rock de Repente): "Meu repente é brasileiro/ e a pitada de estrangeiro/ eu boto pra te envenenar ... Macunaíma maquinando artimanha, engolindo o homemaranha. Se você botar uma pitada de qualquer coisa tá tudo bem. Mas se fizer uma coisa antagônica, que não tenha absolutamente nada com o período, com a tradição, então não chama de São João. Um forró que não é forró poderia botar o nome de potó, cotó, qualquer coisa. Se não é forró, não é forró. É apropriação indébita. Zé da Flauta falava do frevo a pulso. O cara não sabia fazer um frevo, botava um metal e chamava de frevo. Vamos trazer o forró de Lisboa, outro dia eu tava em Paris e tocava Feira de Mangaio. Me mostraram uma matéria, quase de página inteira comigo, na Ucrânia. Sobre os discos Forró Lunar e Forró de Todos os Tempos", dois discos que ganharam o Prêmio da Música Brasileira", comenta Alceu, que no dia 14 de julho se apresenta em Lisboa.

 PREFERÊNCIA

 Evitando citar nomes, ou especificar esta ou aquela cidade, Alceu Valença não concorda com o argumento de que a montagem das grades das festas públicas obedeçam a um clamor popular, que se determinados artistas não estiverem nela o povo deixa de comparecer:
 "Não acredito nisso. Fiz agora em Araripina um show absolutamente lotado. Não que tenha nada contra sertanejo. Acho que tem lugar para todo artista. Se o sertanejo tocar forró, tudo bem. Se o brega cantar forró, tudo bem. Se tem padre tudo bem, desde que ele não venha com Ave Maria. Eu não canto forró? Não canto frevo? É cada qual no seu cada qual. Num festival de blues em News Orleans vão tocar bolero? Num festival de rumba em Cuba eles colocam forró? Acredito que podem haver junções em determinados momentos, uma coisa absorvendo a outra, mas de uma forma vagarosa, senão arte vira um jingle. O cantor de jingle faz tudo, canta qualquer ritmo, mas não é uma coisa de coração. A arte, ela tem uma coisa quase religiosa".
 Ao contrário da grita geral dos forrozeiros contra a música que não tenha afinidades com São João, Alceu diz que até se pode contratar sertanejos (citando o gênero porque é o estilo da vez), desde que não se misture as coisas: "Peguemos uma cidade onde se realiza um São João tradicional, Campina Grande, por exemplo, que se diz a Capital do Forró. Se eles querem ter o brega, por que não fazer uma semana de brega antes do São João. Faz­-se a mesma coisa com o Carnaval. Vai ter rock? Então em janeiro façam um festival de rock. No Carnaval mesmo vamos tocar frevos de bloco, instrumental, caboclinho, maracatu. Acho que é preciso respeitar a festa. Eu tenho muitos shows, mas faço de acordo com o tempo e o lugar".
 PRÊMIOS
 Sem nenhum show, restrita ainda às telas de salas de cinema e ao disco, a trilha de A Luneta do Tempo, primeiro filme dirigido por Alceu Valença, foi indicada ao Prêmio da Música Brasileira, na categoria Projeto Especial. Ele foi indicado ainda nas categorias Álbum Regional, com o DVD/CD Vivo/Revivo (os dois lançados pela Deck). Concorre ainda ao prêmio de Melhor Cantor Regional, uma indicação reducionista, sobretudo para um artista que tem 45 anos de carreira e cuja música só é assumidamente regional, no período junino, quando cai na estrada com a turnê nordestina, de São Pedro e São João
Fonte:Jornal do Commércio
Professor Edgar Bom Jardim - PE