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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Vídeo SAMARICA PARTEIRA- Luiz Gonzaga


 Oi sertão!
- Ooi!
- Sertão d' Capitão Barbino! Sertão dos caba valente...
- Tá falando com ele!...
- ...e dos caba frouxo também.
-...já num tô dento.
- Há, há, há... [risos]
- sertão das mulhé bonita...
– ôoopa
- ...e dos caba fei' também ha, ha
- ...há, há, há... [risos]

- Lula!
- Pronto patrão.
- Monte na bestinha melada e risque. Vá ligeiro buscar Samarica parteira que Juvita já tá com dô de menino.

Ah, menino! Quando eu já ia riscando, Capitão Barbino ainda deu a última instrução:
- Olha, Lula, vou cuspi no chão, hein?! Tu tem que vortá antes do cuspe secá!
Foi a maior carreira que eu dei na minha vida. A eguinha tava miada.

Piriri piriri piriri piriri piriri piriri piriri
uma cancela: nheeeiim ... pá...
Piriri piriri piriri piriri piriri piriri
outra cancela: nheeeiim... pá!
Piriri piriri piriri pir... êpa !
Cancela como o diabo nesse sertão: nheeeiim... pá!
Piriri piriri piriri piriri
Um lajedo: patatac patatac patatac patatac patatac . Saí por fora !
Piriri piriri piriri piriri piriri piriri piriri piriri
Uma lagoa, lagoão: bluu bluu, oi oi, kik' k' - a saparia tava cantando.

Aha! Ah menino! Na velocidade que eu vinha essa égua deu uma freada tão danada na beirada dessa lagoa, minha cabeça foi junto com a dela!... e o sapo gritou lá de dentro d'água:
- ói, ói, ói ele agora quaje cai!

... Sapequei a espora pro suvaco no vazi' dessa égua, ela se jogou n'água parecia uma jangada cearense: [bluu bluu, oi oi, kik' k'] Tchi, tchi, tchi.
Saí por fora.

Piriri piriri piriri piriri piriri piriri piriri
Outra cancela: nheeeiim... pá!
piriri piriri piriri piriri piriri piriri

Um rancho, rancho de pobe...
- Au au!
Cachorro de pobe, cachorro de pobe late fino...
- Tá me estranhan'o cruvina?
Era cruvina mermo. Balançô o rabo. Não sei porque cachorro de pobe tem sempre nome de peixe: é cruvina, traíra, piaba, matrinxã, baleia, piranha.
Há! Maguinho mas caçadozinh' como o diabo!
Cachorro de rico é gooordo, num caça nada, rabo grosso, só vive dormindo. Há há ... num presta prá nada, só presta prá bufar, agora o nome é bonito: é white, flike, rex, whiski, jumm.
Há! Cachorro de pobe é ximbica!

- Samarica, ooooh, Samarica parteeeeira!

Qual o quê, aquelas hora no sertão, meu fi', só responde s'a gente dê o prefixo:
- Louvado seja nosso senhor J'us Cristo!
- Para sempre seja Deus louvado.

- Samarica, é Lula... Capitão Barbino mandou vê a senhora que Dona Juvita já tá com dô de menino.
- Essas hora, Lula?
- Nesse instante, Capitão Barbino cuspiu no chão, eu tem que vortá antes do cuspe secá.

Peguei o cavalo véi de Samarica que comia no murturo ? Todo cavalo de parteira é danado prá comer no murturo, não sei porque. Botei a cela no lombo desse cavalo e acochei a cia peguei a véia joguei em riba, quase que ela imbica p'outa banda.

- Vamos s'imbora Samarica que eu tô avexado!
- Vamo fazê um negócio Lula? Meu cavalin' é mago, sua eguinha é gorda, eu vou na frente.
- Que é que há Samarica, prá gente num chegá hoje? Já viu cavalo andar na frente de égua, Samarica? Vamo s'imbora que eu tô avexado!!

Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic
nheeeiim... pá!
Piriri tic tic piriri tic tic
bluu oi oi bluu oi, uu, uu

- ói, ói, ói ele já voltoooou!

Saí por fora.

Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic
Patateco teco teco, patateco teco teco, patateco teco teco

Saí por fora da pedreira

Piriri piriri tic tic piriri tic tic
nheeeiim... pá !
Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic
nheeeiim... pá !
Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic
nheeeiim... pá!
Piriri piriri tic tic piriri tic tic

- Uu uu.

- Tá me estranhando, Nero? Capitão Barbino, Samarica chegou.

- Samarica chegou!!

Samarica sartou do cavalo véi embaixo, cumprimentou o Capitão, entrou prá camarinha, vestiu o vestido verde e amerelo, padrão nacioná, amarrou a cabeça c'um pano e foi dando as instrução:

- Acende um incenso. Boa noite, D. Juvita.
- Ai, Samarica, que dô !
- É assim mermo, minha fi'a, aproveite a dô. Chama as muié dessa casa, p'a rezá a oração de São Reimundo, que esse cristão vem ao mundo nesse instante. B'a noite, cumade Tota.
- B'a noite, Samarica.
- B'a noite, cumade Gerolina.
- B'a noite, Samarica.
- B'a noite, cumade Toinha.
- B'a noite, Samarica.
- B'a noite, cumade Zefa.
- B'a noite, Samarica.
- Vosmecês sabe a oração de São Reimundo?
- Nós sabe.
- Ah Sabe, né? Pois vão rezando aí, já viu??

[vozes rezando]

- Capitão Barbiiino! Capitão Barbino tem fumo de Arapiraca? Me dê uma capinha pr' ela mastigar. Pegue D. Juvita, mastigue essa capinha de fumo e não se incomode. É do bom! Aguenta nas oração, muié! [vozes rezando] Mastiga o fumo, D. Juvita... Capitão Barbino, tem cibola do Cabrobró?
- Ai Samarica! Cebola não, que eu espirro.
- Pois é prá espirrar mesmo minha fi'a, ajuda.
- Ui.
- Aproveite a dor, minha fi'a. Aguenta nas oração, muié. [vozes rezando] Mastigue o fumo D. Juvita.
- Capitão Barbiiino, bote uma faca fria na ponta do dedão do pé dela, bote. Mastigue o fumo, D. Juvita. Aguenta nas oração, muié. [vozes rezando alto].
- Ai Samarica, se eu soubesse que era assim, eu num tinha casado com o diabo desse véi macho.
- Pois é assim merm' minha fi'a, vosmecê casou com o vein' pensando que ela num era de nada? Agora cumpra seu dever, minha fi'a. Desde que o mundo é muundo, que a muié tem que passar por esse pedacinh'. Ai, que saudade! Aguenta nas oração, muié! [vozes rezando alto].Mastigue o fumo, D. Juvita.
- Ai, que dô!
- Aproveite a dô, minha fi'a. Dê uma garrafa pr' ela soprá, dê. Ô, muié, hein? Essa é a oração de S. Reimundo, mermo?
- É..é [muitas vozes].
- Vosmecês num sabe outra oração?
- Nós num sabe... [muitas vozes].
- Uma oração mais forte que essa, vocês num têm?
- Tem não, tem não, essa é boa [muitas vozes]
- Pois deixe comigo, deixe comigo, eu vou rezar uma oração aqui, que se ele num nascer, ele num tá nem cum diabo de num nascer: "Sant' Antoin pequenino, mansadô de burro brabo, fazei nascer esse menino, com mil e seiscentos diabo!"
[choro de criança]

- Nasceu e é menino homem!
- E é macho!
- Ah, se é menino homem, olha se é? Venha vê os documento dele! E essa voz!

Capitão Barbino foi lá detrás da porta, pegou o bacamarte que tava guardado a mais de 8 dia, chegou no terreiro, destambocou no oco do mundo, deu um tiro tão danado, que lascou o cano. Samarica dixe:

- Lascou, Capitão?
- Lascou, Samarica. É mas em redor de 7 légua, não tem fi' duma égua que num tenha escutado. Prepare aí a meladinha, ah, prepare a meladinha, que o nome do menino... é Bastião.
Compositorr Orlando Rodrigues
Professor Edgar Bom Jardim - PE

A farra do capitalismo rentista



Foto: Reprodução 
Se você tem acesso à internet, certamente já leu alguma notícia ou presenciou discussões acaloradas sobre Bitcoins. Nos últimos tempos, a moeda digital vem surpreendendo o mundo inteiro com uma valorização surreal, causando euforia e temor. Mas a verdade é que, independente do propósito para o qual as criptomoedas foram criadas, elas repetem um fenômeno já conhecido no sistema capitalista liberal em que vivemos. E suas consequências costumam ser desastrosas.
Há muito mistério envolvendo o surgimento do Bitcoin. O que se sabe é que seu criador, ou grupo de criadores, adotou o pseudônimo de Satoshi Nakamoto, mas, apesar de muitas investigações, nunca se chegou a uma informação oficial crível de quem fosse essa pessoa. Atualmente, ela não é a única moeda digital circulando pela internet, mas, certamente, é a mais conhecida e valorizada.
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Criada em 2008, no contexto da crise econômica global, o Bitcoin é uma criptomoeda. Uma espécie de arquivo digital online que, apesar de funcionar como moeda, não é impresso por governos ou bancos tradicionais. Sua criação se dá através de um processo envolvendo computadores e cálculos matemáticos chamado “mineração”, sendo ela considerada uma moeda descentralizada, sem um poder regulador ou controlador por trás.
Todas as informações envolvendo essas moedas e suas transações são armazenadas em um espaço digital chamado “blockchain”, que se utiliza de criptografia para tanto. Isso garante o anonimato das transações, o que gera a primeira grande crítica à moeda.
Desde a crise dos subprimes em 2008, vivemos uma época de grande desconfiança em relação ao sistema financeiro mundial. Vale lembrar que esta crise, da qual o mundo ainda não se recuperou, teve início com a falta de transparência com que bancos manejavam ativos financeiros relacionados a seguros e hipotecas, criando falsos valores por meio de maquiagens financeiras.
Muitos economistas e pessoas ligadas à política criticam que, mesmo com a grande crise, pouco foi feito no sentido de forçar os bancos a terem maior transparência. Varoufakis diz que, ao contrário, foram os Estados que se curvaram ainda mais aos bancos. Já Piketty propõe que sejam aplicadas sanções, não só aos bancos, mas também aos países que facilitam as políticas obscuras dessas instituições financeiras.
Mas o mercado de Bitcoins e outras moedas digitais caminha justamente no sentido contrário. A criptografia que envolve esse sistema promete o anonimato de todas as transações que o envolvem. Não à toa, a moeda é frequentemente associada a atividades ilícitas, como a compra de drogas na rede Silk Road. Além disso, as moedas digitais são acusadas de facilitar outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e a evasão fiscal, como alerta o Nobel da economia Joseph Stiglitz.
Porém, convenhamos, não há nada de novo até aqui. Esses mesmos atos ilícitos e a falta de transparência sempre aconteceram nos sistemas financeiro e monetário tradicionais. Quanto a isso, só o que as criptomoedas poderiam fazer é intensificar ainda mais problemas que já existem. Além disso, bastaria que tal mercado se submetesse às mesmas regulações que o sistema financeiro tradicional para supor que o problema estaria, em parte, resolvido.
Mas esse é só o problema mais óbvio que envolve as moedas digitais.
Outro grande problema que ronda o Bitcoin é que o mesmo já deixou, há muito tempo, de se portar como uma moeda propriamente dita. O fato da criptomoeda ter a capacidade de se valorizar em uma escala incomparável, chegando a ver seu valor aumentar em 1.000% em um único mês, transformou-a, essencialmente, em objeto de especulação.
Isso porque não há motivos para seus proprietários gastarem-na em qualquer tipo de compra se, em menos de uma semana, é provável que a moeda valha o dobro do que vale hoje. Desse modo, investidores têm comprado a moeda com o único objetivo de acumular renda através de sua valorização, apoiando-se, apenas, na fé que outros investidores têm nesse mercado.
É a clássica bolha, como diversos economistas já têm alertado no mundo todo. Por isso não têm faltado comparações com a crise dos subprimes de 2008 ou com a famosa bolha das tulipas holandesas do século 17.
Contra o Bitcoin, pesa, ainda, a grande instabilidade de seu valor, que oscila com grande amplitude e imprevisibilidade a depender das notícias mundiais, além do fato de que a sua produção já está bem próxima do limite de 21 milhões de unidades imposto desde o início ao sistema. Ninguém sabe dizer como se comportará a moeda quando o limite for atingido.
Porém, a empolgação com os possíveis rendimentos em investimentos no mercado do Bitcoin tem lembrado, em muito, o clima pré-crise de 2008. E vale lembrar que tal crise foi extremamente amplificada pelo fato de empresas produtoras e geradoras massivas de emprego, como a General Eletrics, por exemplo, estarem investindo seus lucros em subprimes.
Quando a bolha estourou, a crise gerou um efeito dominó que teve como consequência o endividamento público e o desemprego em escalas globais. Não seria surpresa se o mesmo estivesse acontecendo com o mercado de Bitcoins. Se grandes produtoras e empregadoras estiverem investindo neste mercado, o sinal de alerta já deveria ter sido soado.
Além disso, mesmo que o mercado de criptomoedas surpreenda e não se torne uma bolha prestes a estourar, certo é que ele está constituindo um sistema de produção de desigualdade extrema.
Ao contrário do que se prega, o Bitcoin (e as moedas digitais em geral) não são plenamente acessíveis ao mundo todo. Segundo a ONU, em 2015, mais da metade da população mundial sequer tinha acesso à internet. Pior ainda, além dos 4 bilhões de excluídos do mundo cibernético, os outros 3,2 bilhões estão concentrados em países mais desenvolvidos. Enquanto, na Europa, mais de 80% dos lares estão conectados, na África, o índice é de cerca de 10%.
Além disso, mesmo aqueles com acesso à internet não necessariamente têm a tecnologia suficiente para produzir as moedas através da “mineração”, já que o processo tem demandado cada vez mais dos computadores. Há, ainda, o grande gasto de energia nessa atividade. Hoje, com um serviço que atende apenas cerca de 3 milhões de pessoas no mundo, o Bitcoin já tem um gasto energético que representa 0,15% da demanda global.
Por certo, o investimento em Bitcoins não é para qualquer pessoa. Sobretudo agora que a moeda vale cerca de US$ 18 mil. Isso significa que as moedas digitais podem levar a prática do rentismo a um nível jamais visto.
E, conforme já se sabe bem hoje (e Piketty demonstra isso magistralmente em sua obra), o rentismo tem uma capacidade de acumular capital infinitamente maior que atividades produtivas e que a própria força de trabalho. Não à toa, foram em momentos de farra rentista, em 1929 e 2008, que a desigualdade de renda mundial explodiu. Com um investimento que pode se valorizar em até 1.000% em um mês, como os Bitcoins, esses índices de desigualdade tendem a atingir níveis estratosféricos.
Mas, mesmo que esse processo de “rentização” do Bitcoin seja revertido e ele passe a se comportar como uma moeda verdadeira, ainda existirão outros problemas a serem resolvidos no sistema.
Se o Bitcoin surgiu como uma ideia de moeda universal e independente, não podemos esquecer o exemplo mais clássico e recente de adoção de uma moeda única no mundo. Se houve muito entusiasmo com a criação do Euro por volta dos anos 2000, hoje, a moeda europeia está longe de ser uma unanimidade.
Boa parte dos problemas em se adotar uma moeda única foram sentidos após a crise de 2008. A vinculação a uma moeda que não estava sob o controle do próprio Estado foi fatal para os países menos desenvolvidos da Zona do Euro, sobretudo para os do Sul Europeu como Portugal, Espanha ou Grécia. Sem poder se utilizar de uma flutuação do câmbio, esses países ficaram sem saída quando suas economias começaram a ruir.
Aliás, essa ruína fez com que muitos, nesses países, percebessem que a política de moeda única não foi acompanhada de um mecanismo que reduzisse as desigualdades regionais dentro do próprio continente. Hoje, há um sentimento no Sul da Europa de que os europeus do Norte foram os únicos realmente beneficiados por essa política de união, principalmente a Alemanha, acusada de centralizar o poder dentro da União Europeia.
A lição que ficou da experiência do Euro, portanto, foi de que uma política de moeda única ou universal só pode surtir efeitos positivos se políticas de redução das desigualdades regionais forem implementadas em conjunto. Porém, o que se vê no mundo de hoje é justamente o contrário, com o aumento dessa desigualdade. Um ambiente nada propício para o sonho da unificação monetária.
Há, ainda, a questão do impacto ambiental, já que o gasto de energia para a produção das criptomoedas é, simplesmente, inviável para a construção de um sistema realmente global.
Com tudo isso, alguns países já têm se mexido para se proteger de um possível novo colapso econômico por conta das criptomoedas. O Equador, por exemplo, já criou sua própria moeda digital, com valor vinculado ao dólar como forma de manter a segurança. A China foi mais radical e proibiu as operações envolvendo esse tipo de moeda, embora algumas pessoas acreditem que o país deva criar a sua própria versão.
Se estes fatos chegaram a jogar o valor do Bitcoin pra baixo, por outro lado, o sistema de InitialCoinOffering e a estreia do Bitcoin no mercado futuro da Bolsa de Chicago elevaram sua cotação e deram ainda mais força à criptomoeda.
Vivemos em um mundo ainda bastante debilitado pela última farra rentista que nos acometeu. Ao contrário de 1929, porém, desta vez pouco foi feito para remediar o problema, e boa parte do mundo parece ainda se render aos mecanismos de um capitalismo liberal cada vez mais capenga.
Uma nova crise, sem dúvidas, pode causar um estrago ainda maior e forçar uma grande mudança na ordem mundial. Poderia a bolha dos Bitcoins se transformar na pá de cal da velha ordem?
Almir Felitte é advogado, graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.
Carta capital
Professor Edgar Bom Jardim - PE

Religião:Igreja Universal passa a ser investigada em Portugal por suposta rede de tráfico de crianças


A Justiça e a Segurança Social de Portugal abriram inquéritos para averiguar uma suposta liderança da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em uma rede de tráfico internacional de crianças. O processo foi aberto após o início da exibição da série de reportagens "O Segredo dos Deuses", em que a emissora de televisão portuguesa TVI mostra o resultado de uma investigação jornalística sobre o caso.
Em nota, a Procuradoria-Geral da República do país informou à TVI, líder de audiência na televisão aberta portuguesa, que "existe um inquérito relacionado com essa matéria, tendo o mesmo sido remetido ao Diap [Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa] para investigação”. 

Leia também:
Suposta rede de adoções ilegais liderada pela Igreja Universal é denunciada por TV em Portugal
Igreja Anglicana admite ter ocultado abuso de jovens

A reportagem, fruto de uma investigação de sete meses, mostra que o bispo Edir Macedo, líder máximo da IURD, está diretamente envolvido no esquema, tendo inclusive escolhido seus netos através de fotografias. Em um primeiro momento, o religioso defendia a vasectomia para os pastores, para diminuir os gastos financeiros da igreja, aponta a reportagem. Os religiosos eram inclusive obrigados a fazer a cirurgia até em clínicas clandestinas, segundo relatos do ex-bispo Alfredo Paulo Filho. Em Portugal, homens com menos de 25 anos não podem fazer vasectomia.

Quando a sua filha biológica mais nova, Viviane Cardoso, casou, o bispo mudou de opinião e passou a defender a adoção, segundo a TVI. As crianças roubadas de suas mães eram levadas a um lar ilegal de crianças em Lisboa, capital de Portugal, onde eram depois encaminhados para as casas de líderes da igreja.

Reação da IURD
Em um vídeo publicado no canal oficial da Igreja Universal no YouTube [assista abaixo], Louis e Vera Andrade, os netos de Edir Macedo apontados como roubados negaram ter sido raptados na infância. "A TVI está dizendo coisas a nosso respeito que não são verdadeiras. Estão dizendo que fomos raptados pela cúpula da Igreja Universal, mas nós não fomos raptados. Fomos adotados de forma legal", disse Louis no vídeo. Eles também pediram a não veiculação de suas imagens e nomes pela emissora, mas não foram atendidos e a reportagem foi ao ar normalmente.

Em nota, a Igreja Universal do Reino de Deus classificou a série como "mentirosa" e acusou a emissora de "promover uma campanha difamatória" que a instituição "não pode tolerar". Ainda de acordo com o texto da IURD, a TVI baseou a série em relatos de Alfredo Paulo Filho, ex-bispo da igreja, que foi expulso da instituição após "condutas impróprias que tornaram insustentáveis a sua permanência na Igreja Universal do Reino de Deus". A IURD também afirmou na nota que o ex-bispo foi condenado a pagar R$ 1,7 milhão de indenização à igreja por danos morais. 

Professor Edgar Bom Jardim - PE

domingo, 10 de dezembro de 2017

Oito perguntas para entender o conflito entre israelenses e palestinos

Soldados israelenses em Jerusalém
Image captionTanto israelenses quanto palestinos reivindicam Jerusalém como capital de seus territórios | Foto: Menahem Kahana/AFP/Getty Images
O reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel pelos Estados Unidos abre um novo capítulo na história de um conflito que já dura quase 70 anos.
A disputa pela cidade, sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos, é quase tão antiga quanto a briga por territórios entre israelenses e palestinos - e a decisão desta semana do presidente Donald Trump, que inclui a transferência da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, é vista como um risco às negociações de paz na região.
A BBC responde oito perguntas básicas para entender por que o conflito entre israelenses e palestinos é tão complexo e polarizado.

1. Como o conflito começou?

O movimento sionista, que procurava criar um Estado para os judeus, ganhou força no início do século 20, em reação ao antissemitismo sofrido por eles na Europa.
A região da Palestina, entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo, considerada sagrada para muçulmanos, judeus e cristãos, pertencia ao Império Otomano naquele tempo e era ocupada, principalmente, por muçulmanos e outras comunidades árabes. As aspirações sionistas deram início a um forte movimento migratório judaico, que gerou resistência entre as comunidades locais.
Após a desintegração do Império Otomano, na Primeira Guerra Mundial, o Reino Unido recebeu um mandato da Liga das Nações (antecessora da ONU) para administrar o território da Palestina.
Antes e durante a guerra, contudo, os britânicos fizeram uma série de promessas a árabes e judeus que não se cumpririam, entre outras razões, porque eles já tinham repartido o Oriente Médio com a França. Isso provocou um clima de tensão entre os dois lados que acabou em confrontos entre grupos paramilitares judeus e árabes.
Após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, aumentou a pressão pelo estabelecimento de um Estado judeu. O plano original previa a partilha do território controlado pelos britânicos entre judeus e palestinos.
Protestos em Ramallah
Image captionDecisão americana gerou onda de protestos em cidades palestinas, como Ramallah (acima) | Foto: EPA
Após a fundação de Israel, em 14 de maio de 1948, a tensão deixou de ser local para se tornar questão regional. No dia seguinte, Egito, Jordânia, Síria e Iraque invadiram o território. Foi a primeira guerra árabe-israelense, também conhecida pelos judeus como a guerra de independência ou de libertação. Depois da guerra, o território originalmente planejado pela Organização das Nações Unidas para um Estado árabe foi reduzido pela metade.
Para os palestinos, começava ali a nakba, palavra em árabe para "destruição" ou "catástrofe": 750 mil palestinos fugiram para países vizinhos ou foram expulsos pelas tropas israelenses.
Mas 1948 não seria o último ano de confronto entre os dois povos. Em 1956, Israel enfrentou o Egito em uma crise motivada pelo Canal de Suez, conflito que foi definido fora do campo de batalha, com a confirmação pela ONU da soberania egípcia sobre o canal, após forte pressão internacional sobre Israel, França e Grã-Bretanha.
Em 1967, veio a batalha que mudaria definitivamente o cenário na região - a Guerra dos Seis Dias. Foi uma vitória esmagadora de Israel sobre uma coalizão árabe. Após o conflito, Israel ocupou a Faixa de Gaza e a Península do Sinai, do Egito; a Cisjordânia (incluindo Jerusalém Oriental) da Jordânia; e as Colinas de Golã, da Síria. Meio milhão de palestinos fugiram.
Israel e seus vizinhos voltaram a se enfrentar em 1973. A Guerra do Yom Kippur colocou Egito e Síria contra Israel numa tentativa dos árabes de recuperar os territórios ocupados em 1967.
Em 1979, o Egito se tornou o primeiro país árabe a chegar à paz com Israel, que desocupou a Península do Sinai. A Jordânia chegaria a um acordo de paz em 1994.

2. Por que Israel foi fundado no Oriente Médio?

A religião judaica diz que a área em que Israel foi fundado é a terra prometida por Deus ao primeiro patriarca, Abraão, e seus descendentes.
A região foi invadida pelos antigos assírios, babilônios, persas, macedônios e romanos. Roma foi o império que nomeou a região como Palestina e, sete décadas depois de Cristo, expulsou os judeus de suas terras depois de lutar contra os movimentos nacionalistas que buscavam independência.
Com o surgimento do islã, no século 7 d.C., a Palestina foi ocupada pelos árabes e depois conquistada pelas cruzadas europeias. Em 1516, estabeleceu-se o domínio turco, que durou até a Primeira Guerra Mundial, quando o mandato britânico foi imposto.
A Comissão Especial das Nações Unidas para a Palestina disse em seu relatório à Assembleia Geral em 3 de setembro de 1947 que as razões para estabelecer um Estado judeu no Oriente Médio eram baseados em "argumentos com base em fontes bíblicas e históricas" e na Declaração de Balfour de 1917 - em que o governo britânico se posicionou favorável a um "lar nacional" para os judeus na Palestina.
Reconheceu-se a ligação histórica do povo judeu com a Palestina e as bases para a constituição de um Estado judeu na região.
Após o Holocausto nazista contra milhões de judeus na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, cresceu a pressão internacional para o reconhecimento de um Estado judeu.
Cúpula da RochaDireito de imagemREUTERS
Image captionLocalizada na parte antiga de Jerusalém, a Cúpula da Rocha é uma construção sagrada para o islã
Sem conseguir resolver a polarização entre o nacionalismo árabe e o sionismo, o governo britânico levou a questão à ONU.
Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral aprovou um plano de partilha da Palestina, que recomendou a criação de um Estado árabe independente e um Estado judeu e um regime especial para Jerusalém.
O plano foi aceito pelos israelenses, mas não pelos árabes, que o viam como uma perda de seu território. Por isso, nunca foi implementado.
Um dia antes do fim do mandato britânico da Palestina, em 14 de maio de 1948, a Agência Judaica para Israel, representante dos judeus durante o mandato, declarou a independência do Estado de Israel.
No dia seguinte, Israel solicitou a adesão à ONU, condição que alcançou um ano depois. Hoje, parte dos membros da organização ainda não reconhece o Estado israelense - o mesmo vale para a Palestina.

3. Por que há dois territórios palestinos?

Relatório da Comissão Especial das Nações Unidas para a Palestina à Assembleia Geral, em 1947, recomendou que o Estado árabe incluísse a área oeste da região da Galileia, a região montanhosa de Samaria e Judeia, com a exclusão da cidade de Jerusalém, e a planície costeira de Isdud até a fronteira com o Egito.
Mas a divisão do território foi definida pela linha de armistício de 1949, estabelecida após a primeira guerra árabe-israelense.
Os dois territórios palestinos são a Cisjordânia (incluindo Jerusalém Oriental) e a Faixa de Gaza. A distância entre eles é de cerca de 45 km. A área é de 5.970 km2 e 365 km2, respectivamente.
Originalmente ocupada por Israel, que ainda mantém o controle de sua fronteira, Gaza foi ocupada pelo Exército israelense na guerra de 1967 e desocupada apenas em 2005. O país, no entanto, mantém um bloqueio por ar, mar e terra que restringe a circulação de mercadorias, serviços e pessoas.
Em 2007, Gaza passou a ser governada pelo Hamas, grupo islâmico que nunca reconheceu os acordos assinados entre Israel e outros grupos palestinos. Em outubro deste ano, um acordo de reconciliação entre o Hamas e o laico Fatah - ambos grupos palestinos, porém rivais - deu à Autoridade Palestina o controle administrativo de Gaza.

4. Israelenses e palestinos nunca se aproximaram da paz?

Após a criação do Estado de Israel e o deslocamento de milhares de pessoas que perderam suas casas, o movimento nacionalista palestino começou a se reagrupar na Cisjordânia e em Gaza, controlados pela Jordânia e Egito, respectivamente, e nos campos de refugiados criados em outros países árabes.
Pouco antes da guerra de 1967, organizações palestinas como o Fatah, então liderado por Yasser Arafat, formaram a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e lançaram operações contra Israel, primeiro a partir da Jordânia e, depois, do Líbano. Os ataques também incluíram alvos israelenses em solo europeu.
Yasser Arafat, Bill Clinton e tradutor
Image captionOs acordos de Camp David, em 2000, foram a última tentativa mais consistente de negociação de paz | Foto: Casa Branca
Em 1987, teve início o primeiro levante palestino contra a ocupação israelense. A violência se arrastou por anos e deixou centenas de mortos. Um dos efeitos da intifada foi a assinatura, entre a OLP e Israel em 1993, dos Acordos de Paz de Oslo, nos quais a organização palestina renunciou à "violência e ao terrorismo" e reconheceu o "direito" de Israel "de existir em paz e segurança", um reconhecimento que o Hamas nunca aceitou.
Após os acordos assinados em Oslo, foi criada a Autoridade Nacional Palestina (ANP), que representa os palestinos nos fóruns internacionais. O presidente é eleito por voto direto. Ele, por sua vez, escolhe um primeiro-ministro e os membros de seu gabinete. Suas autoridades civis e de segurança controlam áreas urbanas (zona A, segundo Oslo). Somente representantes civis - e não militares - governam áreas rurais (área B).
Jerusalém Oriental, considerada a capital histórica de palestinos, não está incluída nesse acordo e é uma das questões mais polêmicas entre as partes.
Em 2000, a violência voltou a se intensificar na região, quando teve início a segunda intifada palestina. Desde então, israelenses e palestinos vivem num estado de tensão e conflito permanentes.

5. Quais são os principais pontos de conflito?

A demora na criação de um Estado palestino independente, a construção de assentamentos israelenses na Cisjordânia e a barreira de Israel a Gaza - condenada pelo Tribunal Internacional de Haia - complicam o andamento de um processo paz.
Mas esses não são os únicos obstáculos, como ficou claro no fracasso das últimas negociações de paz sérias, em Camp David, nos Estados Unidos, em 2000, quando o então presidente americano Bill Clinton não conseguiu mediar um acordo entre Arafat e o então primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak.
As diferenças que parecem irreconciliáveis são:
- Jerusalém: Israel reivindica soberania sobre a cidade inteira e afirma que a cidade é sua capital "eterna e indivisivel", após ocupar Jerusalém Oriental em 1967. A reivindicação não é reconhecida internacionalmente. Os palestinos querem Jerusalém Oriental como sua capital.
- Fronteiras: os palestinos exigem que seu futuro Estado seja delimitado pelas fronteiras anteriores a 4 de junho de 1967, antes do início da Guerra dos Seis Dias, o que incluiria Jerusalém Oriental, o que Israel rejeita.
- Assentamentos: ilegais sob a lei internacional, construídos pelo governo israelense nos territórios ocupados após a guerra de 1967. Na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental há mais de meio milhão de colonos judeus.
- Refugiados palestinos: os palestinos dizem que os refugiados (10,6 milhões, de acordo com a OLP, dos quais cerca de metade são registrados na ONU) têm o direito de voltar ao que é hoje Israel. Mas, para Israel, permitir o retorno destruiria sua identidade como um Estado judeu.

6. A Palestina é um país?

A ONU reconheceu a Palestina como um "Estado observador não membro" no final de 2012, deixando de ser apenas uma "entidade" observadora.
A mudança permitiu aos palestinos participar de debates da Assembleia Geral e melhorar as chances de filiação a agências da ONU e outros organismos.
Mas o voto não criou um Estado palestino. Um ano antes, os palestinos tentaram, mas não conseguiram, apoio suficiente no Conselho de Segurança.

7. Por que os EUA são o principal parceiro de Israel? Quem apoia os palestinos?

A existência de um importante e poderoso lobby pró-Israel nos Estados Unidos e o fato de a opinião pública ser frequentemente favorável aos israelenses faz ser praticamente impossível a um presidente americano retirar apoio a Israel.
De acordo com uma pesquisa encomendada pela BBC em 2013 em 22 países, os EUA foram a única nação ocidental com opinião favorável a Israel e a única com uma maioria de avaliações positivas (51%).
Além disso, ambos os países são aliados militares: Israel é um dos maiores receptores de ajuda americana, grande parte destinada a subsídios para a compra de armas.
Assentamento de Har Homa, em Jerusalém
Image captionNas últimas décadas, Israel tem construído assentamentos em território Palestino, como o de Har Homa, em Jerusalém | Foto: Ahmad Gharabli/AFP/Getty Images
Palestinos não têm apoio aberto de nenhuma potência.
Na região, o Egito deixou de apoiar o Hamas, cujo apoio principal hoje é o do Catar.

8. O que falta para que haja uma oportunidade de paz duradoura?

Israelenses teriam de aceitar a criação de um Estado soberano para os palestinos, o fim do bloqueio à Faixa de Gaza e o término das restrições à circulação de pessoas e mercadorias nas três áreas que formariam o Estado palestino: Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Faixa de Gaza.
Grupos palestinos deveriam renunciar à violência e reconhecer o Estado de Israel.
Além disso, eles teriam que chegar a acordos razoáveis sobre fronteiras, assentamentos e o retorno de refugiados.
No entanto, desde 1948, ano da criação do Estado de Israel, muitas coisas mudaram, especialmente a configuração dos territórios disputados após as guerras entre árabes e israelenses.
Para Israel, esses são fatos consumados, mas os palestinos insistem que as fronteiras a serem negociadas devem ser aquelas existentes antes da guerra de 1967.
Além disso, enquanto no campo militar a tensão é constante na Faixa de Gaza, há uma espécie de guerra silenciosa na Cisjordânia, com a construção de assentamentos israelenses, o que reduz, na prática, o território palestino nestas áreas.
Mas talvez a questão mais complicada pelo seu simbolismo seja Jerusalém, a capital tanto para palestinos quanto para israelenses.
Tanto a Autoridade Palestina, que governa a Cisjordânia, quanto o grupo Hamas, em Gaza, reinvindicam a parte oriental como a capital de um futuro Estado palestino, apesar de Israel tê-la ocupado em 1967.
Um pacto definitivo dificilmente será possível sem resolver esse ponto, questão agora ainda mais complexa após a decisão americana de reconhecer a cidade como capital de Israel.
A decisão de Trump vai na mesma direção de uma medida aprovada em 1995 pelo Congresso americano, prevendo a transferência da Embaixada americana em Israel para Jerusalém. No entanto, isso nunca havia sido posto em prática, porque era necessária a aprovação da Presidência dos Estados Unidos.
Desde então, em todos os semestres, o ato do Congresso foi encaminhado aos presidentes americanos, mas a praxe sempre foi renunciar à mudança.
Apesar de parecer contraditório, foi o que o próprio Trump fez - o republicano também assinou a renúncia, para que haja tempo de iniciar a transferência da embaixada, mas anunciou publicamente o reconhecimento da cidade como capital israelense, o que tem um efeito político importante no cenário internacional.
Fonte:BBC.
Professor Edgar Bom Jardim - PE