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sábado, 7 de julho de 2018

Copa:Prefeito de Bruxelas cria polêmica ao postar imagem de estátua belga famosa urinando em Neymar



Tuíte de Philippe CloseDireito de imagemREPRODUÇÃO TWITTER
Image captionPiada após jogo rendeu críticas a prefeito da capital belga

"Sem mais."
Para comemorar a vitória por 2 a 1 da Bélgica contra o Brasil na Copa do Mundo, o prefeito de Bruxelas, Philippe Close, resolveu publicar esta frase junto a uma montagem que mostra uma estátua urinando sobre uma foto de Neymar caído no chão e chorando.
A imagem controversa foi publicada no Twitter pelo prefeito na noite da vitória e já havia sido compartilhada mais de mil vezes até o fechamento desta reportagem.
A estátua que aparece na montagem fica em Geraardbergen, cidade belga de pouco mais de mil habitantes.
Mas a principal escultura a retratar um menino urinando no país está na capital, comandada por Close.

Reações

A publicação rendeu piadas, mas também gerou uma onda de critícas vindas de brasileiros e dos próprios belgas.
"Não havia outras maneiras melhores de comemorar do que compartilhar insultos ao oponente?! É uma vergonha para o prefeito da capital", escreveu um belga.
"Que maneira triste de festejar", disse outro, em francês.
A provocação do prefeito da capital também difere da cordialidade vista entre vitoriosos e derrotados após a partida desta sexta-feira em Kazan, na Rússia.
Nas ruas do centro histórico da cidade, brasileiros e belgas dividiram os mesmos restaurantes e bares e posaram juntos para fotos.
"Pelo menos o belga está me pagando cerveja para eu me sentir melhor", brincou um brasileiro enrolado na bandeira adversária já no início da madrugada.
A publicitária brasileira Mariana Alencar, que vive há cinco anos em Bruxelas, disse à reportagem que lamenta a derrota como torcedora da seleção, mas também entende a sua importância para os belgas.
"Claro que eu queria ganhar e vou sofrer no trabalho e com outros amigos na segunda-feira", afirmou a brasileira. "Estou brava, óbvio, mas entendo a importância disso para eles."
"A Bélgica não é um país unido, é dividido, e até o governo é superfragmentado por conta das diferenças linguísticas. Há um movimento separatista forte e a Seleção faz o país esquecer um pouco disso", avalia.

Estátua do Manneken Pis em BruxelasDireito de imagemREUTERS
Image captionEstátua foi vestida com uniforme da seleção belga no início da semana passada, antes de o país enfrentar o Brasil nas quartas-de-final

Ela explica: "É uma seleção diversa, com jogadores de Flanders (região do norte onde se fala holandês) e Wallonia (região do sul onde se fala francês), de Bruxelas (oficialmente bilíngue) e também filhos de imigrantes".
"Fora o separatismo, existe bastante racismo com muçulmanos e filhos de congoleses, como Lukaku, que já deu entrevistas sobre isso."
Foi o artilheiro belga quem deu o passe para De Bruyne marcar o segundo gol do país contra o Brasil, que reagiu no segundo tempo, mas não conseguiu reverter o placar.
"Nós já temos cinco estrelas, eles não têm nenhuma", conclui a brasileira que vive em Bruxelas.

Garotinho urinando

A célebre "Manneken Pis" - algo como "menininho urina" - tem pouco mais de 60 centímetros e há gerações é, junto ao chocolate e à cerveja, um dos maiores símbolos de Bruxelas.
Principal ponto turístico da cidade, a estátua foi colocada no centro histórico há mais de quatro séculos, mas, de tanto ser vandalizada e alvo de roubos e reproduções, foi substituída por uma réplica nos anos 1960.
Há reproduções dela inclusive no Brasil. Uma das mais conhecidas está no Rio de Janeiro, em frente à sede do clube Botafogo, no bairro homônimo.
Quando o time vence um campeonato, um dos primeiros gestos dos torcedores é vestir o menino com uma camisa alvinegra.
As explicações sobre o significado da escultura, no entanto, são conflitantes.
Para alguns, trata-se da representação de uma criança nobre urinando sobre inimigos da família. Mas a principal lenda local sugere que o pequeno conseguira apagar os pavis de uma pilha de explosivos que detonariam a cidade ao fazer o gesto imortalizado em bronze.
Séculos depois, na arena de Kazan, na Rússia, o time belga, que nunca ganhou uma Copa do Mundo, conseguiu apagar a faísca que movia a seleção brasileira, tida como uma das principais favoritas, em sua busca pelo hexacampeonato.
Professor Edgar Bom Jardim - PE

quinta-feira, 5 de julho de 2018

COPA:Exames médicos são cancelados em dias de jogos: 'Ouvi os funcionários do laboratório torcendo'


Cartaz em posto de Pinheiros, em SP, anuncia fechamento de unidade três horas antes do jogo Brasil e Bélgica pela Copa da Rússia
Image captionPosto de saúde em São Paulo vai seguir decreto de governador: fechará três horas antes do jogo Brasil e Bélgica
A bióloga Cristiane Pestana agendou a realização de três exames de ultrassom para a manhã do dia 22 de junho. Seguiu a orientação do laboratório e chegou com 30 minutos de antecedência a uma unidade no Meier, zona norte do Rio de Janeiro. Porém, deu de cara com a porta trancada. Nenhum sinal de que, àquela hora, alguém estava sendo atendido.
Do lado de fora, ela conseguia ouvir os funcionários do laboratório particular Sérgio Franco gritando com os lances da Seleção Brasileira, que enfrentava um jogo duríssimo contra a Costa Rica na Copa do Mundo da Rússia.
A partida terminou em 2 a 0 para o Brasil, e Pestana ficou sem seus exames. "Ninguém me avisou que ele seria cancelado por causa do jogo", conta Pestana à BBC News Brasil.
A bióloga não foi a única a enfrentar esse tipo de situação. Nas redes sociais e em sites de reclamações, como o Reclame Aqui, são inúmeras as pessoas que relataram remarcações e cancelamentos de exames e consultas por causa dos jogos da seleção de Neymar e Tite.
Pestana conta que não recebeu nenhuma informação do laboratório sobre novas datas para seus exames. "Liguei na central de atendimento e eles disseram que só haveria vaga para meados de julho", conta.
O laboratório não respondeu aos contatos da BBC News Brasil sobre o caso da bióloga.
"Sei que a Copa é um evento especial, de quatro em quatro anos, eu até gosto. Mas acho um absurdo você parar o sistema de saúde por causa dos jogos", diz Pestana, de 35 anos.
Cristiane Pestana foi até o laboratório, mas jogo do Brasil na Copa impediu o procedimentoDireito de imagemARQUIVO PESSOAL
Image captionA biológa Cristiane Pestana conseguiu ouvir funcionários de laboratório assistindo ao jogo do Brasil
Situação parecida ocorreu com a secretária acadêmica Meire Palma, de 52 anos. Ela havia marcado um exame de raios-x para sua tia, Cina Posi, de 82 anos, para as 15h do último dia 27. No mesmo horário, o Brasil entraria em campo contra a Sérvia pela última partida da primeira fase do Mundial.
"Por volta das 10h, o laboratório me mandou uma mensagem de celular, dizendo que o exame da minha tia seria remarcado. Não deram nenhuma justificativa", conta Palma.
O exame foi pedido por um médico que pretende operar Posi para tratar uma hérnia. A cirurgia, no entanto, vai atrasar em virtude da remarcação do exame.
O laboratório Centro de Diagnósticos Brasil (CDB) ligou para remarcar o procedimento, mas só havia vagas para o fim de julho. "Me senti perdida, é a saúde de uma pessoa idosa que está em jogo. A gente paga um convênio que não é barato e eles desmarcam um exame por causa de uma partida de futebol", diz Palma.
Em mensagem à família, o laboratório CDB afirmou que "lamenta" o ocorrido e estava trabalhando para solucionar o problema.

Rede pública

Tite e Neymar em jogo do Brasil contra o México, pelas quarta de final da Copa da RússiaDireito de imagemEMMANUEL DUNAND / AFP
Image captionJogo do Brasil contra o México fez laboratório adiar exame de raios-x da aposentada Cina Posi, de 82 anos
Mas não é só na rede particular que remarcações e cancelamentos estão ocorrendo. O autônomo Sérgio Santa Rosa, de 60 anos, passou pelo problema em um posto do Sistema Único de Saúde (SUS), em Saquarema (RJ).
Ele tinha uma ultrassonografia agendada para as 8h da última segunda-feira, duas horas antes do jogo entre Brasil e México. Na partida, Neymar e Firmino marcaram gols para o Brasil, mas, em Saquarema, Santa Rosa ficou sem exame.
"Um dia antes, um funcionário me ligou e disse que o posto de saúde estaria fechado por causa do jogo", conta ele. A secretaria de Comunicação da Prefeitura de Saquarema não atendeu às ligações da reportagem.
Resultado: o autônomo terá de esperar até o próximo dia 16 para fazer o exame. "É muito desagradável. Vou precisar esperar mais duas semanas para descobrir o que tenho", diz. O autônomo diz estar sofrendo de fortes dores abdominais. "Estou me automedicando enquanto não consigo fazer o exame."
Jogos do Brasil também alteraram o atendimento da saúde pública em São Paulo.
Na manhã desta quinta, um cartaz no portão avisava que um posto estadual em Pinheiros, zona oeste da capital paulista, só vai funcionar até o meio-dia nessa sexta-feira, data da partida entre Brasil e Bélgica, marcada para três horas depois, às 15h.
Um segurança da unidade ainda avisou à reportagem: "Se o Brasil passar para a semifinal, vai ser a mesma coisa na terça."
Neymar em jogo da Copa da Rússia, em 2018Direito de imagemFABRICE COFFRINI/AFP
Image captionBrasil enfrenta a Bélgica pelas quartas de final da Copa da Rússia
Segundo a Secretaria Estadual da Saúde, os hospitais vão funcionar normalmente, mas centros ambulatoriais podem ter alterações de horário. A pasta diz que pacientes com exames ou consultas marcados para a hora do jogo já foram avisados de novas datas.
O funcionamento do sistema de saúde segue o decreto assinado pelo governador do Estado, Márcio França (PSB). Em caso de jogos à tarde, repartições públicas só funcionam até as 12h. Quando os jogos ocorreram pela manhã, elas abriram às 15h.
O mesmo vai ocorrer na rede municipal: hospitais abrem normalmente, mas postos de saúde ficarão fechados durante a partida. A gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB) afirma que também avisou pacientes e remarcou procedimentos agendados para o horário do jogo.

Cabe processo?

Para José Cláudio Ribeiro Oliveira, presidente da comissão de estudos de planos de saúde da OAB-SP, pacientes da rede privada de saúde podem processar laboratórios privados que se recusaram a fazer exames por causa de jogos da seleção.
"Se o paciente conseguir provar que isso ocorreu, ele tem boas chances de vencer na Justiça", explica o advogado à BBC News Brasil. "É normal que a iniciativa privada dispense funcionários por causa da Copa, mas não é recomendável que serviços de saúde façam isso."
Para a professora Ana Maria Malik, coordenadora da área de gestão de saúde da Fundação Getúlio Vargas, as paralisações durante os jogos da Copa não precisam ser considerados um problema, necessariamente. "É melhor que os atendimentos ocorram com a atenção completa do funcionário, não pela metade", explica.
"E o trabalhador tem direito aos seus momentos de diversão, tanto na rede pública quanto na particular. É claro que a saúde é um tema mais complexo, pois gera mais expectativa nas pessoas", diz Malik. Ela acrescenta, ainda, ter ouviro relatos de pacientes que também pediram para remarcar exames para poderem assistir aos jogos do Brasil.

Professor Edgar Bom Jardim - PE

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Prisão da Copa:'prisão Fifa' em porão de estádio que recebe bêbados, brigões e torcedores com identidades falsas

A 'prisão da Fifa' onde Molly ficou detida por tentar entrar em estádio com identidade de amigaDireito de imagemMOLLY ZUCKERMAN
"Nunca, nunca mexa com a Fifa." É essa a lição que a americana Molly Zuckerman, de 24 anos, aprendeu na primeira semana da Copa do Mundo da Rússia, depois de ser levada a um dos espaços mais surreais que diz ter conhecido na vida.
No porão do estádio de São Petersburgo, sob os pés de uma horda de torcedores que lotavam a arquibancada e vibravam na partida entre Rússia e Egito, Molly e outras seis pessoas foram mantidas em cárcere por cinco horas, acompanhadas pelo olhar atento de dezenas de seguranças contratados pela Fifa.
O jogo começou às 21h do horário local, terminou com uma vitória por 3 a 1 para os donos da casa por volta das 23h, e Molly e seus companheiros desconhecidos continuaram presos no subsolo.
A passagem pela surpreendente "prisão da Fifa", como ela descreve, ocorreu após a americana ser flagrada tentando entrar no estádio com a identidade de uma amiga.
Grávida e sem disposição para ir à partida, a dona do ingresso ofereceu o bilhete a Zuckerman. Amigos sugeriram que ela usasse a Fan ID (identificação oficial emitida pela Fifa para o torneio) da amiga.
"Fui a vários jogos. Eles só olham a Fan ID e o ingresso. Você passa o ingresso pelo leitor digital e entra. Simples assim", disse um colega.
Zuckerman se lembrou do final da adolescência, quando entrava em festas que serviam bebidas alcoólicas com documentos falsos. "O pior que pode acontecer é me mandarem de volta para casa", supôs.
Mas a Fifa é bem diferente das matinês da cidade natal de Zuckerman na Califórnia.

Celas gradeadas

À BBC News Brasil, a Fifa confirmou a existência de áreas de detenção e celas nas arenas.
"Como parte dos arranjos gerais de segurança e padrões que se aplicam na Rússia para grandes áreas como arenas esportivas, a maioria dos estádios de futebol em nosso país é equipada com salas de detenção temporárias", disse, em nota, o Comitê Local de Organização dos Jogos.
"Estes (locais) são previstos para a possível detenção de pessoas ou torcedores indisciplinados. Pelo que sabemos, esta é também uma prática normal em muitos países ao redor do mundo", afirma o comitê, por meio de sua assessoria de imprensa.

Professor Edgar Bom Jardim - PE

domingo, 1 de julho de 2018

Copa:Conheça o professor de escola pública que fez seleção trocar pontapés por bom futebol


Durante décadas, a seleção do Uruguai carregou a fama de equipe violenta, uma herança principalmente dos jogos sanguinários realizados por Peñarol e Nacional nas Copas Intercontinentais, disputadas inicialmente pelos vencedores da Copa Libertadores e da Uefa Champions League em tensos jogos de ida e volta, um na América do Sul e outro na Europa.
 estigma só começou a ser dissipado quando a seleção celeste foi assumida, primeiro entre 1988 e 1990, e depois em 2006 até os dias de hoje, por um professor e diretor de escola pública chamado Óscar Washington Tabárez Silva.
Conhecido como El maestro ("o professor"), por ter de fato lecionado a língua de Cervantes por muitos anos em uma escola do bairro de Cerro, em Montevidéu, Tabárez é descrito como um treinador "diferenciado" por um dos jogadores que melhor lhe conhecem: o ex-zagueiro Diego Lugano, que durante anos o capitão da Celeste.
"Ele é professor de escola pública no Uruguai, vem de uma família toda de professores. É um cara muito diferenciado entre todas as pessoas que já conheci. Possui um grande vocabulário e uma cultura enorme", conta o defensor, em entrevista ao ESPN.com.br.
"Você pode falar com ele sobre qualquer tema, de qualquer parte do mundo, que com o conhecimento dele ele conversa sem problemas. O Tabárez possui o melhor vocabulário do idioma espanhol que já escutei. De todos os treinadores que já tive, sem dúvidas é o que melhor se expressa", completa.
El maestro já está há 12 anos no comando da equipe nacional de seu país, que assumiu em 2006 após ficar quatro anos parado, sem trabalhar como treinador.
Nesse tempo, teve como grande destaque a conquista da Copa América de 2011, além do 4º lugar na Copa do Mundo de 2010. Em sua primeira passagem pela Celeste, no final dos anos 80, aliás, ele já havia vencido também os Jogos Pan-Americanos de 1983.
Nesta década de trabalho, ele se notabilizou por fazer um trabalho muito sólido, mantendo a sempre presente garra charrúa, mas trocando as pancadas pelo bom futebol. Para isso, utilizou algumas habilidades e a experiência de seus tempos como diretor.
Em seu time, só jogam atletas com "valores e ética", segundo Lugano, que conhece o técnico desde março de 2006, quando foi convocado pela primeira vez por ele.
"A principal característica dele é que trouxe um projeto de institucionalização da seleção uruguaia. Ou seja, ele supervisionava tudo e tinha uma mesma forma de pensar desde a base até o profissional. E, neste processo, ele deu mais importância à formação de seres humanos", descreve o zagueiro.
"Antes de ser jogador de seleção do Uruguai, você precisa ser um bom ser humano para jogar com ele. Tabárez só convoca profissionais com valores e éticas. Isso importa mais para ele que ser um grande jogador. Se coincidirem as duas coisas, ótimo, mas essa é a ideia dele. Para estar na seleção, primeiro precisa ter esses dois requisitos: valores e ética. Se o cara é bom ou não vem depois", ressalta Lugano.
No Mundial da Rússia, o Uruguai levou um cartão amarelo e cometeu somente 33 faltas (média de 11 por partida). Neste sábadom às 15h (de Brasília), será a vez de Tabárez enfrentar o time de Portugal do técnico Fernando Santos, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2018.
Resta saber qual professor irá dar uma "aula" em campo...

De zagueiro central a 'Maestro'

Antes de ser professor, Oscar Tabárez foi zagueiros de vários times pequenos e médios do Uruguai. Após pendurar as chuteiras, foi lecionar, ao mesmo tempo em que trabalhava como treinador de clubes como Bella Vista, Danúbio e Montevideo Wanderers.
Seus bons métodos lhe renderam sua primeira chance na seleção uruguaia sub-20 em 1983, com ele conquistando os Jogos Pan-Americanos com uma equipe montada em cima da hora. Aquilo chamou a atenção do gigante Peñarol, à época ainda uma grande potência sul-americana, que o contratou em 1986 para reconduzir a equipe às glórias.
No ano seguinte, os resultados já vieram, com os Carboneros vencendo a Copa Libertadores em uma final histórica contra o América de Cali-COL, decidida apenas com um gol no último minuto da prorrogação da 3ª partida - obra de Diego Aguirre, ex-atacante letal dos aurinegros e hoje técnico do São Paulo.
Em 1988, Tabárez assumiu pela primeira vez a seleção uruguaia, terminando como vice-campeão da Copa América de 1989, atrás somente do anfitrião Brasil de Romário.
Saiu em 1991, para assumir o também gigante Boca Juniors, sendo campeão argentino e da extinta Copa Masters da Conmebol em 1992, batendo o Cruzeiro por 2 a 1 na final.
Depois, El maestro se aventurou na Europa, comandando times como Cagliari-ITA e Oviedo-ESP. Seu maior feito foi ter chegado ao poderoso Milan, em 1996, mas ele não teve muito sucesso e acabou substituído após alguns meses pelo lendário Arrigo Sacchi.
O uruguaio voltou em 2001 à América do Sul, para comandar o Vélez Sarsfield-ARG, passando em seguida mais uma vez pelo Boca, em 2002, desta vez sem tanto sucesso.
Após ser demitido do clube de Buenos Aires, Tabárez "se aposentou" como treinador e ficou quatro anos apenas atuando como professor. Em 2006, porém, foi chamado para tentar resgatar as glórias da Celeste, assumindo a equipe que não havia conseguido se classificar para três das últimas quatro Copas do Mundo.
O comandante arregaçou as mangas e topou, aplicando imediatamente o "Processo de institucionalização de seleções e formação de seus futebolistas", criado por El maestro e citado acima por Lugano.
Esse método unificou os treinamentos de todas as seleções de base com a principal do Uruguai, colocando a formação 4-3-3 como padrão e criando janelas de tempo para os jogadores estudarem tática e entenderem melhor as ideias de seu comandante.
Hoje, 10 dos 11 jogadores mais convocados da história do Uruguai participaram de "El proceso", como ficou conhecido o método que tirou a Celeste Olímpica da ruína e a fez voltar a ser temida no futebol mundial, tanto em competições oficiais quanto de base.
"Ele é 100% gestor. Neste aspecto, é um dos melhores do futebol mundial. Já como treinador, não é de inventar. Ele estuda e se atualiza, mas não é inovador. Não é um Mourinho ou um Guardiola. É muito mais pragmático", salienta o defensor.
No gerenciamento do grupo, destacam-se sempre a calma e a educação.
"No dia a dia, ele é muito respeitoso. Em 11 anos, nunca escutamos uma palavra ruim dele. Ao contrário: nos momentos mais tentos e difíceis, sempre usou palavras justas, que acabam tranquilizando o jogador", relata o ex-capitão da seleção.
"Mas ele é muito firme. Muito firme mesmo! Sem nunca levantar a voz ou faltar com o respeito, mas é muito claro mesmo tomando decisões difíceis. E ele já tomou muitas na seleção. Todo mundo o respeita muito, tanto os que já jogaram, os que seguem jogando ou os que não tiveram oportunidade, pois Tabárez trata a todos com igualdade", acrescenta.

Tabárez quase tirou a faixa de Lugano

Como nos tempos de professor, Oscar Tabárez também é disciplinador quando necessário. Diego Lugano sentiu bem isso quando quase teve sua faixa de capitão retirada pelo técnico.
"Em 2007, quando eu estava jogando no Fenerbahce, participei de uma briga em um clássico contra o Galatasaray. Fui um pouco responsável (pela briga), e nessa época já era capitão do Uruguai. E se tinha algo que ele proibia era que um jogador da seleção deixasse esse tipo de imagem: de brigão, que não dá bom exemplo para o clube, para a sociedade e para o espetáculo", lembra o atleta, que jogou cinco anos pelo Fener.
"Eu achava que não tinha nada a ver uma coisa com a outra, né? Mas ele me ligou e me chamou a atenção. Disse que não tinha me escolhido para ser o capitão desse projeto dele para depois eu dar um exemplo desses em campo. Aí falou que iria pensar se eu era mesmo o cara indicado para cumprir a função mais importante do projeto dele. Ele quase me tirou a faixa, mas por sorte veio outra oportunidade depois e eu agarrei. Mas essa convicção, esse estilo dele, faz a diferença em muitos aspectos. Eu respeito muito", elogia.
Além do pragmatismo tático e do cuidado com a disciplina e o bom exemplo, Tabárez ainda exige que os jogadores estudem para se expressar melhor. De acordo com Lugano, ele já chegou a comemorar mais um prêmio acadêmico do que uma vitória charrúa.
Aconteceu em 2010, quando o Uruguai voltou da Copa de 2010, na África do Sul, com o 4º lugar. A seleção recebeu uma comenda da Real Academia Española, instituição fundada em 1713 e que tem como função a preservação do idioma espanhol, principalmente na elaboração de dicionários e concursos mundiais de literatura, poesia e textos em geral.
"Quando voltamos, ele me mostrou um prêmio que a gente tinha recebido, que reconhecia o Uruguai como seleção que melhor se expressou no Mundial. Ele falou isso com uma alegria enorme no rosto e na maneira de falar. Muito maior do que se tivéssemos ganho um jogo importante ou que fosse um prêmio por resultado esportivo", contou.
"Ele vê no nosso time algo muito além do esporte. É uma meta e uma obrigação que ele sente fazer a seleção representar de verdade o seu país. Eu nunca o vi tão alegre quanto no dia em que recebeu aquele prêmio. Nem na conquista da Copa América!", observa.

'Se não treinou, não vai jogar'

Outro fator da personalidade de Óscar Tabárez que chama a atenção para Lugano é sua incrível tranquilidade para lidar com qualquer tipo de situação, nas vitórias e nas derrotas.

"Claro que ele fica muito feliz quando ganhamos, mas acho que fica mais feliz por nós. Ele é uim cara que não é de fazer alarde na vitória e nem drama na derrota. É muito equilibrado. Em 10 anos, já passamos por muitos momentos difíceis, como eliminatórias, e êxtases como a Copa América e a Copa do Mundo. Para cada momento, sempre tinha palavras justas e coerentes. Ele te segura na empolgação, e te levanta na tristeza", elogia.
As palavras "justas e coerentes" muitas vezes também são duras, como o próprio Lugano ouviu durante a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, quando sentiu dores em meio ao torneio e acabou não jogando por opção de Tabárez, que seguiu sua coerência de sempre.
"Depois do jogo contra a Costa Rica, fiquei com uma dor muito grande no joelho e pedi para ficar três dias no departamento médico para tentar jogar na partida seguinte. Pedi para ele três dias de repouso. Ele disse que permitia, mas que eu iria perder o lugar no time, porque eu tinha que treinar com o restante do grupo para jogar", recorda.
"Para Tabárez, tem que treinar no mínimo quatro dias antes do jogo. Eu expliquei que havia jogado no dia anterior, que era o capitão há 10 anos e merecia essa exceção. Ele respondeu que não. Disse: 'Diego, aqui todos são iguais. Não posso abrir mão das leis do grupo por ninguém, nem você neste caso especial. Se você não pode treinar, não vai poder jogar. Muito fácil, sem mistério. Jogará um companheiro seu'. Técnico falar que trata todo mundo igual é fácil. Palavras qualquer um consegue dizer. Mas dar exemplo, como ele dá, é difícil", exalta.
Lugano também contou com Tabárez como "psicólogo" quando pensou recentemente em se aposentar da seleção uruguaia.
"Logo depois da Copa do Mundo, perguntei a ele: 'Óscar, está na hora de eu deixar de ser capitão, não é? Já faz 10 anos... Acho que já cumpri meu ciclo e tenho que deixar isso para os mais novos, não?'. Ele respondeu: 'Você pensa isso ou só quer escutar palmas e elogios? Se você quer deixar de ser capitão e jogar pelo Uruguai, a decisão é sua. Eu ainda acho que você tem muito a fazer. Agora, se quiser escutar elogios e palmas no seu ouvido, e que falem de você, tudo bem... Quem escolhe é você'", rememora o são-paulino.
"Então, ele me falou que o tempo passa e as novas gerações fazem com que você fique de fora da seleção. É a lei da vida. Mas falou para eu não forçar isso. Foi mais uma lição de vida que eu tive. Eu entendi que o processo natural é a seleção deixar você, não você deixar a seleção. Muitos abandonam a seleção antes de deixarem de ser convocados, por questão de orgulho pessoal. E eu quase fiz isso", admite.
El maestro o convenceu do contrário, e o ex-defensor do São Paulo ficou à disposição do time Celeste até sua aposentadoria, em 2017.
"Ele me fez questionar a mim mesmo. 'Você sente que pode jogar mais ou está querendo ouvir elogios, com medo de que seu momento final chegue?'. Então, eu mudei minha postura publicamente. É claro que aconteceu o processo natural e apareceram outros mais novos que pegaram minha antiga vaga. O treinador entendeu isso, pois sabia que eu não chegaria em condições competitivas na Copa de 2018, e deu prioridade a outros", explica Lugano.
Esta foi a última lição de maestro Tabárez ao seu antigo capitão.
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Professor Edgar Bom Jardim - PE