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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Descoberta supercola feita com bagaço de cana em centro de pesquisa brasileiro

Cola sustentável colocada em recipienteDireito de imagemFELIPE SOUZA/BBC NEWS BRASIL
Image captionCola inventada por duas pesquisadoras é feita com látex, bagaço de cana e lignina
"Gente, está muito difícil tirar essa fórmula dos equipamentos. Eu tento lavar, mas fica tudo grudado nas hélices". Foi assim que Naima Orra, na época estagiária do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, identificou uma textura pegajosa, que se tornou depois de um mês de pesquisa uma cola atóxica feita a partir de bagaço de cana-de-açúcar e materiais descartados por empresas de celulose.
Depois de ouvir o relato de Orra, a pesquisadora do Laboratório Nacional de Nanotecnologia Rubia Figueiredo Gouveia decidiu orientar a estagiária em uma pesquisa específica para aprimorar o estudo e criar uma nova cola. Um mês depois, as duas chegaram à fórmula final, patenteada no Brasil este ano. A cola sustentável brasileira poderá ser registrada no exterior em 2019 sob a autoria das duas pesquisadoras - Naima Orra, hoje, faz mestrado na França.
Caso a patente seja comercializada, metade do dinheiro arrecadado será destinado ao fundo de inovação da organização social CNPEM; os outros 50%, divididos entre as inventoras.
Além de ter a mesma eficiência de outras colas já comercializadas atualmente, a nova fórmula é feita a partir da simples mistura de três ingredientes: látex, nanocelulose e lignina.
Rubia Figueiredo GouveiaDireito de imagemDIVULGAÇÃO CNPEM/GUSTAVO MORENO
Image caption'Reaproveitar o que seria descartado é sustentável e ainda deve baratear a produção', diz pesquisadora Rubia Gouveia
"Uma das vantagens é que esses dois últimos elementos são muitas vezes descartados em larga escala por indústrias de papel e refinarias de cana-de-açúcar. Reaproveitar o que seria descartado é sustentável e ainda deve baratear a produção", afirmou Rubia Gouveia em entrevista à BBC News Brasil.
A pesquisadora afirma que a cola pode beneficiar uma cadeia de indústrias que usam o produto, como a automobilística, de móveis, construção civil e brinquedos. Dos três materiais usados em sua produção, o látex deve ser o único que ainda continuaria sendo extraído árvores, principalmente de seringueiras.
Já a nanocelulose é obtida em larga escala hoje no Brasil a partir de árvores de eucalipto. Para a produção da nova cola, porém, a substância foi extraída do bagaço de cana.
A lignina é obtida a partir de um líquido chamado de "licor negro", comumente descartado em indústrias de papel, exceto as mais modernas, que costumam usar a substância para a produção de energia. Para isso, é necessário cozinhar a substância com soda em alta temperatura e pressão.

Produção em larga escala

Fabiano Rosso, gerente de pesquisa do Projeto Lignina da Suzano Papel e Celulose, a maior produtora de papéis de imprimir e escrever da América Latina, disse que uma fração de 3% da lignina produzida pela fábrica da empresa em Limeira, no interior de São Paulo, deve ser separada a partir deste semestre, purificada, modificada, transformada em uma resina e vendida para fábricas de madeira e MDF.
O número equivale a cerca de 20 mil toneladas. O restante continuará sendo queimado, como hoje, para virar vapor, alimentar uma turbina e produzir energia, que abastece a indústria e ainda gera um excedente que é vendido. Caso as experiências demonstrem a viabilidade da supercola, boa parte da substância produzida pela Suzano Papel e Celulose poderia ser utilizada para este fim.
Campus do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e MateriaisDireito de imagemDIVULGAÇÃO CNPEM/RENAN PICORETI
Image captionImagem aérea do campus do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas
A notícia de que uma cola pode ser produzida a partir de lignina animou Rosso. Para ele, o ideal seria diminuir a destinação do material à produção de energia e usá-lo para fabricar de materiais com valor agregado.
"Eu não conheço essa pesquisa, mas vou procurar saber e entender sua aplicação e o que os pesquisadores estão fazendo. Eu tenho interesse não só pela aplicação, mas também pela fabricação desse produto final. Eu vejo esse como um caminho bastante viável para produzir em larga escala", afirmou Rosso.
Fábrica da Suzano Report em LimeiraDireito de imagemDIVULGAÇÃO
Image captionFábrica da Suzano Papel e Celulose produz 20 mil toneladas por ano de um dos principais produtos usados na fabricação da cola sustentável

Formaldeído

Além de vantagens econômicas e ecológicas, a cola sustentável não usa solventes químicos derivados do petróleo como a maior parte das colas usadas hoje industrialmente. O mais conhecido e prejudicial é o formaldeído, classificado como cancerígeno pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1984 e que está presente na maior parte das colas industriais, inclusive as usadas por sapateiros e vidraceiros. O odor da substância pode causar náuseas, dores de cabeça e, em casos mais graves, até mesmo alucinações e confusão mental. A cola sustentável, por sua vez, é atóxica.
O uso do formaldeído foi proibido nas indústrias dos Estados Unidos e do Canadá, as únicas que, ao lado da Suécia, também produzem lignina em larga escala.
Mas, de acordo com a pesquisadora Rubia Gouveia, a cola sustentável não tem como foco apenas uso industrial, mas também comercial, doméstico e escolar.
Teste feito com cola sustentávelDireito de imagemDIVULGAÇÃO
Image captionTeste feito com madeira mostra que pedaço colado não se rompeu ao ser forçado
"É possível fazer modificações para adequar seu uso em diferentes situações. Desta forma, a cola poderia ser usada desde indústrias automobilísticas, móveis, de tecidos a até mesmo em escolas e escritórios", afirma Gouveia.
A cola demonstrou sua potência adesiva em testes de tração feitos em laboratório. Além de colar papéis e madeiras, a cola também mostrou um alto poder de aderência em testes feitos com alumínio.
O próximo passo das pesquisadoras é fazer adaptações na fórmula e testar a cola em altas e baixas temperaturas. Também será feita uma adaptação para que ela possa colar vidros e beneficiar mais setores industriais.

Professor Edgar Bom Jardim - PE

domingo, 3 de junho de 2018

Ciência:DNA revela miscigenação entre ramos humanos ancestrais nas Américas há 13 mil anos


Ilustração retrata indígenas da Terra do Fogo, no extremo sul da ArgentinaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionEntender como o homem ocupou as Américas é um dos maiores desafios dos cientistas
Se a mistura genética é o principal ingrediente daquilo que chamamos de evolução, um novo estudo aponta que houve uma convergência de genomas dos povos pré-colombianos há 13 mil anos.
Cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos, debruçaram-se sobre amostras de DNA de 91 nativos ancestrais para tentar compreender melhor como se deu o povoamento do continente. As conclusões estão na edição da revista Science que será publicada nesta sexta-feira.
Eles partiram da hipótese de que, conforme apontam algumas pesquisas recentes, os nativos americanos têm origens de dois ramos ancestrais: um que entrou pelo norte do continente, outro vindo pelo sul. Por essa versão, o ramo sul teria dado origem a todas as populações indígenas da América Central e do Sul.
Mas, ao analisar as amostras de DNA, eles chegaram a uma conclusão nova: a grande maioria dos povos nativos da parte sul do continente conserva pelo menos algum DNA do ramo norte – conforme pode ser comprovado ao comparar os exemplares com membros de comunidades que vivem hoje no leste canadense e são considerados descendentes diretos desses pioneiros.
Ainda que tais populações tenham se mantido distantes por milênios, portanto, elas conservam um DNA comum.
Indígena em celebração na Colúmbia Britânica, no CanadáDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionNa América no Norte, principalmente no Canadá, Primeiras Nações é o termo usado para se referir aos povos indígenas
Quando analisadas hoje, as populações indígenas atuais da América Central e do Sul apresentam de 42% a 71% do genoma oriundo do ramo norte. E isso deixou os cientistas surpresos. A maior proporção dessa influência genética apareceu justamente no extremo sul do continente, no Chile, na área do sítio arqueológico de Monte Verde, de 14,5 mil anos atrás – um dos mais antigos assentamentos humanos conhecidos da América.
Para a antropóloga especializada em genética Christiana Scheib, de Cambridge, essa descoberta é "intrigante". Mas, segundo ela, por falta de amostras de DNA mais antigo é impossível saber ao certo quando foi que esse ramo do norte chegou à América do Sul.
Antes de 13 mil anos atrás, a migração para o sul era extremamente difícil porque havia muito gelo bloqueando o caminho.
Por outro lado, justamente a área de Monte Verde é um local que não teria sido coberto pelo gelo. Ou seja: uma vez instalada no local, é altamente provável que a população tenha permanecido isolada por um longo tempo, preservando sua continuidade genética.
Mulher indígena caminha no centro histórico de Antigua, na GuatemalaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionIndígenas das Américas do Sul e Central, como esta mulher da Guatemala, seriam descendentes do ramo sul – mas também têm DNA do ramo norte

Separação e miscigenação

De acordo com a pesquisa, é possível tentar desenhar como foi o trajeto do povoamento americano, segundo as variações genéticas.
Entre 18 mil e 15 mil anos atrás, há indícios de que os primeiros povos do ramo norte se separaram em dois núcleos, muito possivelmente seguindo facilidades naturais decorrentes do degelo da última fase da Era Glacial.
Alguns desses ancestrais, como apontam genomas de sítios da região de Ontário, no Canadá, migraram para o leste, justamente na região dos Grandes Lagos. Outro seguiram, ao longo da costa do Pacífico, em direção ao sul, provavelmente "pulando" de ilha em ilha.
Foi este ramo, segundo o estudo, que deu origem ao povo pré-histórico batizado de Clovis – assim nomeado por conta de resquícios encontrados perto da cidade de Clovis, no Novo México, e até pouco tempo atrás considerados como ancestrais de todos os nativos americanos. Esses nativos teriam vivido há cerca de 13 mil anos.
Mas as descobertas não param por aí. Os genomas indicam que, por volta de 13 mil anos atrás, as duas populações então separadas geograficamente sofreram uma "reconvergência", ou seja, um processo de miscigenação.
Para o antropólogo e biólogo Ripan S. Malhi, do Instituto de Biologia e Genoma de Illinois, nos EUA, esses resultados servem para que "possamos aprender mais sobre as complexidades das histórias ancestrais nas Américas, graças às tecnologias paleogenômicas".
Ele diz que, com o estudo, fica claro que os modelos anteriores eram "irrealisticamente simples demais".
Professor Edgar Bom Jardim - PE

quarta-feira, 14 de março de 2018

Stephen Hawking, o físico britânico que revolucionou a Ciência e nossa maneira de entender o Universo


Stephen Hawking
Image captionHawking sofria desde jovem com a esclerose lateral amiotrófica. Foto: BBC/Richard Ansett
O físico britânico Stephen Hawking morreu nesta quarta-feira, aos 76 anos, segundo informou sua família.
Com sua morte, desaparece um dos cientistas mais conhecidos do mundo e também um dos divulgadores da Ciência mais populares das últimas décadas.
"Estamos profundamente tristes pela morte do nosso pai hoje", disseram seus filhos Lucy, Robert e Tim.
"Era um grande cientista e um homem extraordinário, cujo trabalho e legado viverão por muitos anos", afirmaram em um comunicado.
Nascido em 8 de janeiro de 1942 em Oxford, no Reino Unido, Hawking era considerado um dos cientistas mais influentes do mundo desde Albert Einstein, não só por suas decisivas contribuições para o progresso da Ciência, como também por sua constante preocupação em aproximá-la do público e por sua coragem de enfrentar a doença degenerativa da qual sofria e que o deixou em uma cadeira de rodas e sem capacidade para falar de maneira natural.
Hawking usava um sintetizador eletrônico para poder falar, mas a voz robótica produzida pelo aparelho para expressar suas ideias acabou se tornando não só uma de suas marcas registradas, como também constantemente ouvida e respeitada no mundo todo.
Para produzir sua "fala", o físico usava formava as palavras em uma tela com leves movimentos da face, também usados para operar sua cadeira de rodas.
'Meu pai tinha resposta para tudo': as lembranças de infância da filha de Stephen Hawking

Casamento e diagnóstico

Filho de um biólogo que decidiu tirar sua família de Londres para deixá-los a salvo dos bombardeios alemães durante a Segunda Guerra Mundial, Hawking cresceu na cidade de St. Albans.
Como estudante, não tardou em demonstrar seu valor. Formou-se com honras em Física em Oxford, e mais tarde se pós-graduou em Astronomia pela Universidade de Cambridge.
Stephen Hawking.Direito de imagemPA
Image captionHawking defendia que o universo era regido por leis estabelecidas.
O jovem Hawking gostava de montar a cavalo e de remar.
Mas aos 21 anos tudo mudou. Ele começou a notar que seus movimentos eram cada vez mais desajeitados e foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma doença neuromotora.
Os médicos disseram que ele não viveria mais do que dois anos.
Quando foi diagnosticado, planejava seu casamento com Jane Wilde, sua primeira mulher.
"O compromisso me salvou a vida, me deu uma razão para viver", contou o físico anos mais tarde.
O casal teve dois filhos.
Hawking desafiou todos os prognósticos - a doença avançou mais lentamente do que o previsto. Mas com os anos acabou o deixando com movimento somente em dois dedos e em alguns músculos faciais.
Isso não impediu que seguisse trabalhando em suas teorias, divulgadas em livros e eventos públicos.
Em 1988 ele havia completado sua obra Breve História do Tempo, que se converteu em um sucesso absoluto no mundo todo, com mais de 10 milhões de cópias vendidas.

Suas teorias

Stephen HawkingDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionEm 2004, Hawking revisou sua própria teoria e concluiu que os buracos negros não absorvem tudo.
Hawking havia demonstrado que a paixão à qual dedicou toda sua vida, estudar as leis que governam o Universo, também poderia ser atraente para o grande público.
Ele conseguiu com que sua deficiência se convertesse em uma das chaves de sua obra científica. Quando perdeu a mobilidade dos braços, se empenhou em ser capaz de resolver os cálculos científicos mais complexos somente com a mente, sem anotar equações.
Logo começou a propor teses revolucionárias que questionavam os cânones estabelecidos.
Uma de suas afirmações mais ousadas foi a de considerar que a Teoria Geral da Relatividade formulada por Einstein implicava que o espaço e o tempo tivessem um princípio no Big Bang e um fim nos buracos negros.
Em 1976, seguindo os enunciados da física quântica, Hawking concluiu em sua "Teoria da Radiação" que os buracos negros - as regiões no espaço com tamanha força de gravidade que nem a luz pode escapar delas - eram capazes de emitir energia e perder matéria.
Em 2004 revisou sua própria teoria e chegou à conclusão de que os buracos negros não absorvem tudo.
"O buraco negro só aparece em uma silhueta e depois se abre e revela informações sobre tudo o que havia caído dentro dele. Isso nos permite verificarmos o passado e prever o futuro", disse o cientista.

Ainda mais breve...

Hawking teve um papel fundamental na difusão da Astronomia em termos fáceis de compreender para o público geral.
Hawking cmn sua famíliaDireito de imagemAFP
Image captionO cinetista usava um sintetizador de voz para se comunicar e uma cadeira de rodas controlada pelo movimento da cabeça e dos olhos.
Consciente de que seu livro havia vendido muito, mas lido inteiro por poucos devido à sua complexidade, Hawking publicou uma versão mais curta e de leitura mais fácil da já Breve História do Tempo.
O físico tentou por todos os meios que as pessoas comuns se aproximassem dos mistérios do Universo, e em busca desse objetivo não duvidou em recorrer ao humor.
Em uma aparição que ficou famosa no desenho de televisão Os Simpsons, o cientista advertia Homer de que roubaria sua ideia de que o Universo tem forma de rosca.
Outra mostra de sua relação com a ironia está presente em sua própria página na internet, com piadas contadas por ele mesmo.
"Quando tive que dar uma conferência no Japão, me pediram que não fizesse menção ao possível colapso do Universo, porque isso poderia afetar as bolsas de valores", escreveu.
"Porém, posso assegurar a qualquer um que esteja preocupado com seus investimentos de que é um pouco cedo para vender. Ainda que o Universo acabe, isso não deve ocorrer dentro de ao menos 20 bilhões de anos", concluiu.
De BBC
Professor Edgar Bom Jardim - PE