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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Huck para presidência em 2018. Quem é o grupo que pode lançar o apresentador global?


Luciano Huck
Image captionO movimento se divide em relação à uma possível candidatura de Huck | Foto: Tv Globo/Divulgação

Um encontro improvável. É assim que integrantes do movimento Agora! definem sua composição, que abrange gente como o economista Humberto Laudares, assessor parlamentar do senador Tasso Jereissati (PSDB),o ex-secretário de Justiça da gestão Dilma Rousseff (PT) Beto Vasconcelos, o herdeiro do grupo Iguatemi Carlos Jereissati Filho e o líder indígena Anapuaka Tupinambá.
Fundado no ano passado, o Agora! diz ter por missão encontrar uma agenda de propostas de políticas públicas com as quais pudessem concordar tanto esquerdistas quanto liberais. Uma ideia ousada em tempos de intensa polarização. Não é por isso, no entanto, que o grupo tem chamado a atenção.
Recentemente, o apresentador da Globo Luciano Huck ingressou no movimento, o que provocou rumores sobre uma possível candidatura presidencial dele. Embora nada esteja ainda decidido e, oficialmente, o movimento trate a possibilidade com cautela, integrantes do Agora! debatem abertamente a possibilidade e já há divisões internas em relação ao assunto.

Patrícia Ellen, Leandro Machado, Ilona Szabó
Image captionPatrícia Ellen, Leandro Machado e Ilona Szabó começaram o grupo no ano passado

O grupo foi idealizado pelo cientista político Leandro Machado, pela especialista em segurança Ilona Szabó, próxima ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e pela empresária Patrícia Ellen, que foi sócia da consultoria McKinsey & Company.
Participam ainda Rafael Poço, cofundador da Rede Sustentabilidade, partido de Marina Silva; o diretor do grupo educacional Somos, Eduardo Mufarej; a presidente do grupo Todos Pela Educação, Priscila Cruz; o secretário de Assuntos Estratégicos de Michel Temer, Hussein Kalout, e o analista político João A. de Castro Neves, da Eurasia Group.
Apesar da amplitude de posicionamentos políticos, a maioria é composta de homens, brancos e ricos - ou de classe média alta - entre 30 e 40 anos.
Em entrevista à BBC Brasil, Leandro Machado reconheceu o problema e disse que o Agora! está trabalhando para aumentar sua diversidade.
"Na verdade o que todos temos em comum é o acesso à educação", diz Patrícia Ellen, que se formou na USP (Universidade de São Paulo) e mora em Alto de Pinheiros, bairro nobre de São Paulo, mas nasceu no Campo Limpo.

Patricia Ellen
Image captionPatrícia Ellen é um das cofundadoras do grupo

"Você percorre uma distância de 20 quilômetros e a expectativa de vida sobe 20 anos. É uma desigualdade com a qual nos preocupamos muito e uma das nossas principais diretrizes é combatê-la", conta.
Com a bandeira da redução da desigualdade, o grupo tem algumas premissas básicas, mas ainda não fechou sua agenda completa de propostas. Os assuntos são discutidos um a um e a ideia é ter uma lista de proposições concretas, não um compêndio de boas intenções ou princípios.
"A discussão hoje é muito superficial. As pessoas falam em Estado Mínimo, mas o que é isso? Não aderimos a conceitos prontos. Sim, queremos aumentar a eficiência do Estado, mas ele não pode ser mínimo na segurança pública, na educação - precisa garantir educação de qualidade para todos", explica Machado.
Boa parte dos membros é formada ou trabalhou em instituições internacionais renomadas. O advogado Ronaldo Lemos, o economista Tomás Lopes Teixeira e a advogada Celina Beatriz Bottino, por exemplo, têm mestrado pela Universidade de Harvard, nos EUA. A econonomista Mônica de Bolle é PhD pela London School of Economics, na Inglaterra. O executivo Rafael Benke já passou pela OEA (Organização dos Estados Americanos) e pela OMC (Organização Mundial do Comércio).
A ideia, segundo o fundador Leandro Machado, é encampar o discurso da renovação política, mas trazendo para o debate pessoas preparadas, e não "aventureiros". "Ninguém é político, mas todos têm histórico de atuação política. Renovação só pela renovação pode ser pior, se vier uma pessoa despreparada ou mal intencionada", afirma.
Ronaldo Lemos concorda: "Pessoas que participaram a vida inteira da busca de soluções, não gente que estava em casa jogando videogame e de repente resolveu virar político".

Ter ou não ter candidato

Aventureiro, aliás, é uma categoria na qual Machado não encaixa Luciano Huck. "Ele é pessoa que tem uma experiência grande em lidar com pessoas, e é muito bem visto e querido pelo público", diz Leandro.
Huck se aproximou do movimento através de membros como Ilona Szabó - que foi uma das roteiristas do filme "Quebrando o Tabu", dirigido por Fernando Grostein Andrade, irmão de Luciano.
A entrada do apresentador da Globo foi muito discutida entre os membros do movimento.

Luciano Huck
Image captionO apresentador Luciano Huck se tornou membro do Agora! recentemente | Foto: Movimento Agora!

"Ficamos na dúvida se fazia sentido trazer uma pessoa tão conhecida, sobre o tipo de associação que poderia ser feita. Mas entendemos que ele está realmente interessado nos nossos princípios e propostas de atuação", afirma Ellen.
Era um temor do Agora! desde o começo que o debate sobre propostas fosse sequestrado pela discussão de candidaturas majoritárias, especialmente com a chegada de Huck. Nas próximas semanas, os membros vão deliberar sobre o assunto, o que vai definir os rumos do grupo. É muito possível que haja baixas, especialmente entre os esquerdistas do Agora!.
O produtor cultural Alê Youssef se adiantou ao debate e deixou o grupo nesta semana, incomodado com a associação frequente entre Huck e o movimento.
Casado com a atriz Leandra Leal, Youssef faz parte do time do programa Esquenta! e já foi apresentador na GloboNews. Criador do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, ele também participou da criação da Rede Sustentabilidade, do qual se desligou posteriormente.

Integrantes do Agora!
Image captionO Agora! se reúne mensalmente |Foto: Divulgação

No texto que mandou ao grupo anunciando sua despedida, ele afirma que a associação com Huck - que era amigo pessoal de Aécio Neves e apoiou sua candidatura em 2014 - pode comprometer o caráter plural e diverso do grupo.

Torre de Babel

A posição oficial do movimento é de que Huck é "só mais um".
"O Luciano é um membro como todos os outros. Se ele decidir se candidatar, o apoio do Agora! será discutido. Tudo depende se ele irá se comprometer com nossa agenda", diz Leandro Machado.
"Nosso foco não é a [eleição] majoritária. Queremos concentrar nossos esforços na renovação do Legislativo", afirma o advogado Ronaldo Lemos, co-fundador e um dos principais articuladores do movimento.
Membros do Agora!, no entanto, têm participado das conversas de Huck com o presidente do PPS, Roberto Freire. De acordo com a Folha de S.Paulo, o namoro poderia levar até mesmo a uma mudança de nome do PPS, que adotaria o termo Agora!. Além do PPS, Rede e Livres (antigo PSL) iniciaram conversas com o grupo.
A ideia original do movimento é ser suprapartidário - os integrantes interessandos em se lançar candidatos se encaixariam em legendas diferentes.
"São os partidos que estão abertos ao diálogo. Não vamos aderir às ideologias partidárias. Vamos ter uma agenda, nossas propostas, e a ideia é que nossos candidatos possam levar essa programação à sua candidatura", diz Patrícia Ellen.
Para integrantes da ala mais à esquerda, o Agora! sofre por não entender o funcionamento da política brasileira. Pode acabar usado como massa de manobra. O PPS estaria usando a ingenuidade do grupo para colocá-lo a serviço de sua própria agenda de renovação, segundo um deles, que pediu anonimato.

Como surgiu o Agora!

Machado, Ellen e Ilona já se conheciam por causa de sua atuação no setor de políticas públicas - Ilona é presidente do Instituto Igarapé, que atua na área de segurança e política de drogas; Leandro criou o Cause, consultoria sobre causas sociais para organizações e marcas; e Patrícia liderou a Prática de Setor Público e Social no Brasil da McKinsey & Company.
Quando perceberam que o Brasil não estava sendo representado por membros do governo em diversos congressos internacionais sobre políticas públicas, decidiram se juntar.
"Então começamos a pensar em como poderíamos atuar para mudar esse quadro", diz Machado.
Os três chamaram alguns conhecidos que também atuavam nesse sentido e fizeram uma lista de nomes de pessoas que admiravam e que poderiam contribuir com experiência e conhecimento.
Cada um foi ligando para um e o movimento atingiu o número de 50 membros. Em reunião na semana passada, novos integrantes foram aceitos. Hoje o Agora! tem 90 pessoas.
Para participar é preciso se comprometer a doar pelo menos dois anos de sua vida ao serviço público. Quem tem condições - a maioria - também está contribuindo financeiramente, já que o grupo ainda não começou a arrecadar dinheiro externamente.
Alguns doam milhas para as viagens dos membros para os encontros, outros fornecem os espaços para reuniões, outros dão dinheiro - é o caso de Luciano Huck, que também contribuiu.
Os valores ainda não foram divulgados, mas Ellen diz que o movimento preza pela transparência e que terá uma planilha detalhando as contribuições.

Trabalho de base

O grupo fez sua primeira reunião de "escuta" em São Paulo na semana passada. Entender onde se situa a opinião pública e ouvir as pessoas é um dos cinco pilares de atuação - os outros são "pensar", "falar", "engajar" e "agir".
Em um Centro Cultural na divisa entre o Campo Limpo e o Capão Redondo, na periferia da cidade, Patrícia Ellen apresenta o grupo.
Também está presente o professor e historiador Thiago Rocha de Paula, que foi candidato a vereador em Santo André em 2016, pelo PV, e deve ser uns dos nomes do movimento para as eleições proporcionais.
Convidado por Leandro Machado para o grupo, ele conta que recebeu a ligação para uma das reuniões sem saber muito do que se tratava. "Cheguei lá no apartamento e tinha o cara que aparece no jornal, um monte de cara conhecida e gente da TV. Pensei: que que eu tô fazendo aqui?", conta, rindo.
Hoje ele é um dos principais articuladores do trabalho de base do Agora! e foi um dos responsáveis por trazer outros membros que não moram nas áreas mais ricas da capital.

Thiago Rocha
Image captionUm dos membros que deve sair candidato às proporcionais é Thiago Rocha de Paula | Foto: Movimento Agora!

Patrícia pede para as cerca de 20 pessoas na sala votarem em qual assunto querem discutir.
Entre uma lista existente, moradores do bairro grudam post-its em "educação", "redução da desigualdade" e "segurança pública".
Depois de uma hora de desabafos sobre os problemas da educação no país, a mediadora faz uma pausa.
"Falamos dos problemas, mas agora vamos todos fechar os olhos e pensar qual é a educação que a gente quer, qual nosso sonho para a educação no Brasil", disse Ellen.

Reunião no Campo Limpo
Image captionReunião feita com moradores do Campo Limpo é parte de um dos pilares de atuação do movimento: a "escuta" | Foto: Movimento Agora!

A maior parte não entra no clima e fica de olho aberto, ligeiramente sem graça. Mas todos compartilham suas ideias.
Parte do Agora! é fã de meditação: o economista Fabio Toreta, além de estar no movimento, também é voluntário do Awaken Love, iniciativa do guru hinduísta Sri Prem Baba.
No próximo fim de semana, o movimento participará de uma mesa no II Congresso Internacional de Felicidade, em Curitiba, onde Prem Baba também fará palestra.

Estudo e discussão

O método de discussão usado no encontro de escuta, segundo Patrícia, é parecido com o que o grupo usa em suas reuniões mensais.
Para organizar a agenda de propostas com pessoas de posições políticas tão amplas, um grupo – em geral de pessoas que já trabalharam com o assunto - é responsável por pesquisar um tema e apresentar os problemas para o movimento.
Os integrantes fazem leituras e pesquisas prévias e discutem as soluções presencialmente.
O foco é a análise de políticas públicas e a polarização é evitada.
"A gente nunca discutiu se foi ou não foi golpe. O grupo foi criado depois do impeachment, justamente porque vimos que algo precisa ser feito sobre a situação do país e a polarização não estava levando a nada", afirma Ronaldo Lemos. "São todos voluntários, que estão abertos ao diálogo."
O grupo evita também avaliações pessoais sobre figuras como presidente Michel Temer ou o deputado federal Jair Bolsonaro.
Um dos últimos temas analisados foi a Reforma da Previdência.
"Embora as pessoas tenham discordado sobre os meios, chegamos ao consenso que é necessária uma reforma. E como? Acabando com privilégios de diversos setores. A reforma precisa ser eficiente e justa", diz Ellen.
Já sobre reforma trabalhista, por exemplo, ainda não houve consenso - há quem apoie as alterações implementadas por Temer e quem veja perda de direitos aos trabalhadores.
Leandro Machado diz que ter uma agenda concreta de propostas é a garantia de que o grupo - que tem empresários com interesses próprios entre os membros - não se tornará um grande lobista de interesses pessoais.
Ronaldo Lemos reconhece que será um desafio fazer campanha política sem apresentar respostas fáceis e slogans populares - correndo o risco de alienar tanto a esquerda quanto a direita.
"Queremos menos marketing e mais enfrentamento da realidade. Não é fácil, mas não podemos subestimar a capacidade de entendimento das pessoas", diz.
Professor Edgar Bom Jardim - PE

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Secretário de Educação ofende Taís Araújo no Dia da Consciência negra: 'Idiotice racial'

Atriz Taís Araújo havia declarado: "A cor do meu filho faz as pessoas mudarem de calçada". Foto: Globo/Reprodução
Atriz Taís Araújo havia declarado: "A cor do meu filho faz as pessoas mudarem de calçada". Foto: Globo/Reprodução


O depoimento da atriz Taís Araújo, símbolo da luta pela igualdade racial e do empoderamento negro, durante evento do TEDx em São Paulo se tornou um dos relatos mais marcantes do Dia da Consciência Negra (a segunda-feira, dia 20). A artista se valeu de frases contundentes para exemplificar como é difícil criar os filhos em uma sociedade racista: "No Brasil, a cor do meu filho faz com que as pessoas mudem de calçada, escondam as suas bolsas e blindem seus carros. A vida dele só não vai ser mais difícil do que a da minha filha".

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A frase se somou a outras proferidas durante a data para inspirar reflexão sobre a discriminação contra negros no país. Mas, para o secretário de Educação do Rio de Janeiro, Cesar Benjamim, o depoimento se tratou de "idiotice racial". Em postagem no Facebook, ele escreveu: "Nossa maior conquista - o conceito de povo brasileiro - desapereceu entre os pensantes. Qualquer idiotice racial prospera. A última delas é uma linda e cheirosa atriz global dizer que as pessoas mudam de calçada quando enxergam o filho dela, que também deve ser lindo e cheiroso. Vocês replicam essa idiotice".

O secretário atribuiu a desconstrução da tese de democracia racial - o pensamento apoiado na existência, no Brasil, de uma convivência pacífica e igualitária entre negros e brancos - a uma criação do "Departamento de Estado dos Estados Unidos". Benjamim sugeriu uma reflexão para contrapor as declarações de Taís Araújo. "Se os brasileiros mudassem de calçada quando vissem uma pessoa morena ou negra, viveriam em ziguezague. Nunca chegariam a lugar nenhum".

Veja a postagem:

Postagem do secretário de Educação. Foto: Facebook/Reprodução
Postagem do secretário de Educação. Foto: Facebook/Reprodução
Professor Edgar Bom Jardim - PE

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

CONSCIÊNCIA NEGRA - Heloísa Helena: “Todas as estatísticas oficiais mostram histórias de vidas destruídas pela cor da pele”


Hoje é Dia da Consciência Negra e dia também de celebrar o sonho de liberdade que não conseguiram soterrar em Dandhara, Acotirene, Zumbi, Republica de Palmares, Marias, Zés, Marinas, Cidas, Igbonans, Helcias, Carlos, Arísias e milhares mais, que seguem enxugando lágrimas e lutando corajosamente pela liberdade de viver com dignidade as suas legítimas escolhas.
A vida já nos ensinou que na nossa vida pessoal esquecer o passado é terapêutico, pois se não o podemos modificar o deixemos lá, mas na vida em sociedade é absolutamente diferente! Lembrar o passado é mecanismo essencial para não repetir no presente suas malditas perversidades e não cometer a injustiça da impunidade pela não reparação das atrocidades provocadas.
É nossa obrigação histórica superar hoje as novas versões dos grilhões que isolam e aprisionam, do ferro em brasa que marca e discrimina, dos chicotes das humilhações, de todas as novas modalidades dos mesmos mecanismos de imposição de sofrimento e humilhação, pois é exatamente isso que todas as estatísticas oficiais mostram nas histórias de vidas destruídas pela cor da pele. Pela cor da pele??? Sim!! Isso devia nos assombrar, como pode em 2017 esse horrendo comportamento pessoal e institucional ainda persistir?! Portanto, lembrar e lutar para não permitir a perpetuação de tão vergonhosas e abomináveis atrocidades.
redesustentabilidade.org.br
Professor Edgar Bom Jardim - PE

O que é colorismo, o conceito que está na boca de youtubers contra o racismo

Spartakus Santiago, Alessandra Devulsky, Maíra Azevedo (Tia Má), Djamila Ribeiro e Ronaldo Sales
Image captionColorismo tem se tornado conceito mais popular entre ativistas do movimento negro com youtuber | Fotos: Acervo pessoal
"Colorismo não é sua capacidade de pegar o lápis de cor e sair pintando tudo de forma colorida", começa a explicar a youtuber Tia Má, codinome da jornalista baiana Maíra Azevedo, em um vídeo de junho.
Com seu jeito alto astral e assertivo, Tia Má tem hoje mais de 340 mil seguidores no Facebook. Discussões relacionadas ao universo negro e ao racismo são recorrentes em seus vídeos - o do colorismo está entre os de maior audiência na sua página oficial, com 773 mil visualizações.
O conceito é usado para chamar a atenção para os diferentes níveis de preconceito e marginalização sofridos pela população negra, dependendo de quão mais afrodescendente é sua aparência. Isso inclui não só a tonalidade da cor, mas também outras características, como largura do nariz, grossura dos lábios e textura dos cabelos.
Grosso modo, ele ocorre quando há variação de tratamento dado a afrodescendentes conforme o seu grau de proximidade a traços associados à ascendência africana.
"No final todo mundo é preto e todo mundo é discriminado, mas é fundamental que a gente compreenda como essa discriminação acontece", resume Tia Má, que, embora tenha sido registrada como parda quando nasceu, hoje se autodeclara negra.
O colorismo não é um termo novo no movimento negro, mas ainda não caiu, digamos assim, na boca do povo. Agora, com a ajuda das redes sociais, começa a alcançar um público maior. Além da Tia Má, outros youtubers já trataram do assunto nas suas redes sociais, como Nátaly Neri (do canal Afros e Afins), Gabi Oliveira (De Pretas), Sá Ollebar (Preta Pariu), Rayza Nicácio e Spartakus Santiago.
A youtuber Tia Má
Image captionO assunto começa a chegar a um público maior através de influenciadores digitais do movimento negro | foto: acervo pessoal
A advogada e militante Alessandra Devulsky, atualmente pesquisadora na Universidade de Montreal (no Canadá), prepara o livro O que é colorismo?, previsto para ser lançado em março de 2018. A publicação fará parte da coleção Feminismos Plurais, coordenada pela filósofa Djamila Ribeiro.
Um dos objetivos da discussão é questionar a ideia de que a forte miscigenação no país seria um indicativo de "democracia racial".
Intelectuais e militantes negros usam o conceito de colorismo para denunciar que a mistura entre grupos étnico-raciais (no passado, frequentemente fruto da violência sexual de colonos brancos contra escravas negras) não criou uma convivência harmoniosa entre os diferentes, mas uma hierarquização social.
Eles acreditam que entender a complexidade do racismo é fundamental para superá-lo. Além disso, defendem que os afrodescendentes de pele mais clara se conscientizem tanto do preconceito que sofrem, quanto dos privilégios que têm em relação aos de pele mais escura.
"Os chamados negros na verdade vêm de múltiplos povos de várias regiões do território africano, assim como os brancos também têm as suas várias diferenças étnicas e culturais vindas da Europa. A miscigenação não elimina essas diferenças, ela multiplica", nota o sociólogo Ronaldo Sales, especialista em questões étnico-raciais e professor da Universidade Federal de Campina Grande (na Paraíba).
"O colorismo de alguma forma expressa essas diferentes dinâmicas. É a ideia de que não estamos falando de uma oposição entre os sem cor e os de cor, mas na verdade de um processo de contraste e diferenciação que utiliza esses critérios como forma de hierarquização social, e que não é linear", acrescenta.
Alessandra Devulsky explica que o colorismo está baseado na ideia de que existe um fenótipo (isto é, um conjunto de características físicas) normalizado: o europeu. O ideal, segundo essa lógica, é ser alto, ter a pele clara e os traços que remetem à "raça ariana".
"Quanto mais próximo se chega disso, maior a percepção de competência e beleza dessa pessoa", observa.
Ela ressalta que não se trata de uma "disputa" sobre quais são as opressões mais profundas, mas de "entender de que modo o racismo penetra nas nossas vidas, nas relações interpessoais, e como isso se constrói historicamente".
Essa lógica não está presente apenas no Brasil, acrescenta ela. Em sua pesquisa, Devulsky identificou o primeiro uso moderno do conceito na década da 60 na França, em referência a hierarquização social entre diferentes tipos de imigrantes africanos, já que os mais claros, vindos por exemplo da Argélia, tinham mais facilidade de se empregar que os mais escuros.
Retrato de Djamila Ribeiro
Image captionA filósofa e pesquisadora Djamila Ribeiro | foto: acervo pessoal
Segundo a advogada, essa hierarquia tem uma função econômica dentro da sociedade capitalista, pois cria uma distinção entre "quem pode colaborar e gozar de determinados benefícios sociais e quem não pode". Dessa forma, cria uma classe vulnerabilizada, mais suscetível à exploração.
"Eu ofereço então os menores salários e as piores condições, e essas pessoas vão aceitar, não porque não entendem que existe uma superexploração, mas porque não há alternativa para elas. Ou é aquilo ou a fome", critica.

A busca do embranquecimento

Um dos reflexos perversos dessa hierarquização social é o esforço dos não brancos em tentar se embranquecer, observa Devulsky, exemplificando seu ponto com o avanço do consumo de cremes clareadores na Índia.
"É um nicho cosmético (que permite) você conseguir vender um creme de clarear a pele com mais de 50 substâncias cancerígenas. Isso acontece porque o sujeito percebe que, se tiver a pele alguns tons mais claro, vai conseguir alimentar sua família de forma menos violenta, com menos horas de trabalho, num emprego menos indigno. Então, é óbvio que as pessoas vão procurar formas de aliviar esse sofrimento."
Um fenômeno mais presente no Brasil é a busca pelo cabelo liso. Djamila Ribeiro é uma mulher negra de pela escura e, por isso, como ela mesma diz, sua negritude "é indisfarçável". Apenas adulta, porém, ela reconheceu seu cabelo crespo, que hoje usa em um penteado trançado.
"A infância e a adolescência inteiras eu alisei muito meu cabelo. Não por questão de escolha, alisava porque queria ser aceita", conta.
"Minha mãe aquecia o pente de ferro no fogão e passava no meu cabelo. Depois passei para química, ambos processos extremamente agressivos. Eu só fui sentir a textura do meu cabelo na fase adulta. A maioria das mulheres negras da minha geração passaram por isso", acrescenta.

Pardo ou negro?

Militantes procuram usar o debate do colorismo também para questionar essa tentativa de "embranquecimento". Com o título "Pardo não tem raça? Entenda mais sobre colorismo e o lugar do pardo no debate racial brasileiro", o vídeo do ciberativista Spartakus Santiago, publicado em setembro deste ano, teve 1,4 milhão de visualizações no Facebook.
Ele usa o conceito para argumentar que afrodescendentes mestiços também são negros e os convida a se reconhecerem como tais, em vez de se declararem como "pardos", "moreninhos" ou "queimadinhos de sol".
O youtuber Spartakus Santiago
Image captionEufemismos como "moreninho" são uma forma de apagar a identidade negra, diz Spartakus | foto: acervo pessoal
"Quando a pessoa entende que esses termos só camuflam o que a gente é, são só uma máscara para a nossa condição de negro, ela se inclui no debate racial!", defende na gravação.
Santiago, que tem ascendência africana e italiana, conta que dentro da sua própria família sofreu resistência quando passou a se afirmar como negro.
"Eles me diziam 'calma, você é moreno', como se fosse uma ofensa ser negro. Esse é um dos meus vídeos que acho que tem mais papel social, pois muitas pessoas me procuram dizendo que entenderam sua identidade racial a partir dele", contou à BBC Brasil.
O debate, porém, não se dá sem tensões. Santiago, assim como a youtuber Rayza Nicácio, já sofreu críticas de afrodescendentes de pele mais escura que dizem que eles não são negros de verdade. Na visão de Djamila Ribeiro, essa resistência é reflexo do racismo mais duro que essas pessoas enfrentam.
"Muitas vezes a sociedade racista vai privilegiar esses negros de pele mais clara, até no sentido de serem convidados para falarem de certos temas, a ocuparem certos postos que são importantes para a população negra. Isso gera tensões. Mas é importante elas (as mais escuras) entenderem que isso não é responsabilidade dessas pessoas (mais claras), isso é um mecanismo criado por um sistema racista para nos dividir", ressalta.
Santiago foi também acusado de estar "apagando" a ascendência indígena ao defender que pardos se assumam como negros. Ele reconhece que as críticas lhe despertaram novas reflexões e diz que pretende gravar um novo vídeo sobre o assunto. Depois dessas mensagens, ele também acrescentou na descrição do vídeo a ressalva de que estava se referindo aos pardos com afroascendência.
Um ponto central no debate do colorismo é que ser negro está relacionado com a forma como a pessoa é "lida" pela sociedade. Para Devulsky e Sales, não se trata apenas de um processo individual de autodeclaração, mas algo que se constrói coletivamente, na relação com os outros.
Nesse sentido, Sales considera, inclusive, que há a identidade do "pardo-branco". "São pessoas que, embora mestiças, passam como brancas (por suas características físicas) e não são descriminadas por sua cor. Jamais seriam negras. Nesse caso, não devem se beneficiar de cotas em concurso", argumenta.
Já os afrodescendentes que sofrem preconceito racial são negros, considera o sociólogo, independentemente de sua pele ser mais ou menos escura.
Para argumentar, ele usa uma metáfora: "Eu costumo perguntar aos meus alunos: qual das cores é menos escura, o azul-marinho ou o azul-celeste? O azul-celeste, eles respondem. Então, eu pergunto: qual dos dois é mais azul? E aí você não diz qual é mais azul, porque na verdade ambos são".
Fonte: BBC.
Professor Edgar Bom Jardim - PE

Luiz Fux: decisão da Alerj de soltar deputados é ‘promíscua’, ‘vulgar’ e 'certamente será revista’ pelo STF



Luiz Fux
Image captionFux justificou bate-bocas entre ministros do Supremo dizendo que 'debaixo da toga bate o coração de um homem'

"Lamentável", "vulgar" e "promíscua". É assim que o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux classifica a decisão da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro de soltar os deputados estaduais do PMDB Jorge Picciani (presidente da Alerj), Paulo Melo e Edson Albertassi.
Suspeitos de formar uma organização criminosa para desviar recursos públicos, eles foram presos por determinação do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, mas a prisão foi revogada na sexta por decisão da maioria dos deputados estaduais do RJ.
Em entrevista exclusiva à BBC Brasil, Fux destaca que a Alerj não poderia ter decidido sobre as prisões sem ter consultado o Judiciário. Ele afirmou categoricamente que a soltura de deputados estaduais por assembleias "certamente" será revista pelo Supremo.
Além do Rio de Janeiro, assembleias do Rio Grande do Norte e do Mato Grosso usaram a decisão do STF de dar ao Senado a palavra final sobre a suspensão do mandato do senador Aécio Neves (PSDB-MG) para embasar a soltura de deputados estaduais.
Fux está na Inglaterra para um simpósio sobre arbitragem, na Universidade de Oxford. Antes do evento, visitou a sede da BBC, em Londres, para conceder a entrevista.

Fux no plenário do STFDireito de imagemABR
Image captionMinistro presidirá o TSE durante a próxima eleição presidencial

Ele será presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2018 e terá como tarefa conduzir a eleição presidencial num momento de crise política e polarização. Na conversa com a BBC Brasil, o ministro elogiou enfaticamente a possibilidade de o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa se candidatar a presidente no ano que vem.
"É uma figura que a sociedade admira muitíssimo e eu entendo que ele seja um grande nome nesse momento que o Brasil precisa de uma repercussão internacional de que seu dirigente é um exemplo de moralidade e de probidade. E ele saberá montar uma equipe à altura do seu próprio conhecimento, na medida em que ele foi um excelente presidente do Supremo Tribunal Federal."
Fux também defendeu flexibilizar o foro privilegiado - o julgamento do caso será retomado ainda essa semana pela Corte - e reiterou, em referência ao ex-presidente Lula, que qualquer candidato com condenação em segundo grau deve ser impedido de concorrer a cargo eletivo, com base na Lei da Ficha Limpa. "O Brasil não aceita mais candidato ficha suja", afirmou.
Lula já tem condenação em primeiro grau e há dúvidas sobre se ele poderia se candidatar à Presidência amparado em eventual decisão liminar (provisória), caso seja condenado, também, em segunda instância.
BBC Brasil - O Rio de Janeiro vive uma situação extremamente difícil. A Polícia Federal diz que havia uma organização criminosa entre Legislativo, Executivo e Tribunal de Contas para desviar recursos públicos. Como o senhor vê a decisão da Alerj de derrubar a prisão do presidente da assembleia e de deputados?
Luiz Fux - Eu entendo que essa é uma decisão lamentável decorrente de uma interpretação incorreta feita em razão da decisão do Supremo Tribunal Federal (de dar ao Senado o poder de rever medidas cautelares contra Aécio Neves), por 6 a 5, apertada maioria. Portanto, entendo que a tese dessa decisão vai voltar ao plenário. Mas eles se basearam nessa decisão para entender que os deputados estaduais têm as mesmas imunidades dos congressistas federais. Entretanto, houve, no caso federal, uma provocação do Judiciário. E as assembleias estaduais estão utilizando de maneira vulgar e promíscua essa decisão do Supremo sem provocação em relação ao Judiciário. É uma decisão lamentável, que desprestigia o Poder Judiciário, gera uma sensação de impunidade e que certamente será revista pelo Supremo Tribunal Federal.
BBC Brasil - Então, eles não tinham esse direito de rever a decisão (do Tribunal Regional Federal)?
Fux - No meu modo de ver, deveria ter havido uma provocação prévia ao Poder Judiciário. O Ministério Público inclusive já ingressou com uma ação para anular essa deliberação da Assembleia do Rio de Janeiro.

Jorge Picciani sendo presoDireito de imagemFERNANDO FRAZÃO/AGÊNCIA BRASIL
Image captionPresidente da Alerj, Jorge Picciani, foi preso por determinação da Justiça e solto após votação da própria Alerj. Para Fux, decisão da assembleia é 'promíscua' e 'vulgar'

BBC Brasil- Essas decisões (do Senado e da Alerj) não dão a impressão de que o Judiciário é um poder fraco e que o Legislativo pode tudo?
Fux- Constituição estabelece que, até a denúncia, a competência é do Poder Judiciário. Então, o Poder Judiciário não precisaria de autorização nenhuma do Congresso e das assembleias para determinar medidas cautelares. No meu modo de ver, a decisão do Supremo é incorreta. Ela restou proferida por uma maioria, mas na essência é uma decisão incorreta.
BBC Brasil - O senhor vai ser presidente do TSE na eleição de 2018. Até agora o cenário é incerto. Temos o deputado Jair Bolsonaro despontando como candidato, o ex-presidente Lula querendo concorrer, mas com risco de condenação em segunda instância, um PSDB sem candidato definido e muitos investigados... Como o senhor vê esse momento e as opções que estão surgindo?
Fux - Entendo que as eleições de 2018, em razão das candidaturas postas, à semelhança das outras eleições, serão muito questionadas. Quer porque os candidatos tem problemas judiciais, quer porque os partidos têm esse veio beligerante de tentar inserir seus candidatos e excluir os demais. O Brasil tem um sistema eleitoral muito rígido no que concerne candidatura. Temos regras específicas de elegibilidade. O momento do registro é capital, o candidato tem que mostrar que tem ficha limpa. E o Brasil não aceita mais candidatos ficha suja. Não só internamente, mas também para não dar mau exemplo no cenário internacional.
BBC Brasil - Então, se o ex-presidente Lula tiver uma condenação em segundo grau, haveria algum argumento jurídico para permitir que ele concorra?
Fux - Qualquer presidente, qualquer candidatável, qualquer concorrente que tenha condenação em segunda instância recai na Lei da Ficha Limpa. A lei tem instrumentos que eventualmente podem ser utilizados, como as liminares suspendendo o efeito da inelegibilidade. Isso vai ser analisado a cada caso concreto.

Lula em caravana
Image caption'A Lei da Ficha Limpa, qualquer presidente, qualquer candidatável, qualquer concorrente que tenha condenação em segunda instância recai na Lei da Ficha Limpa', disse Fux

BBC Brasil - Outro fenômeno da sociedade brasileira é uma rejeição da política e dos partidos tradicionais. Nesse contexto, possíveis candidaturas de pessoas que nunca tiveram experiência com política começam a aparecer. O apresentador Luciano Huck e o seu ex-colega de tribunal, Joaquim Barbosa são exemplos. Qual a sua opinião sobre essa ascensão de nomes sem bagagem política?
Fux - Entendo que a sociedade sente, em seu interior, uma falta de representatividade adequada. De sorte que, no meu modo de ver, haverá modificação do cenário político. Por outro lado, uma figura emblemática que represente a ética, a moralidade e probidade hoje é a escolha preferida do eleitor. Entretanto, essas pessoas não governam sozinhas. Essas pessoas precisam de grandes equipes. O que estamos verificando é que esses candidatos denominados outsiders têm apresentado equipes eficientes que já funcionaram em governos anteriores com muita qualidade e muita eficiência.
BBC Brasil - Especificamente falando do ex-ministro Joaquim Barbosa. O senhor acha que ele tem chance? O que o senhor acha de juízes na política?
Fux - Em primeiro lugar, até por força de ideologia anglo-saxônica, somos repugnantes a um governo de juízes, até porque juízes não podem ter filiação partidária. Mas o ministro Joaquim Barbosa não é mais juiz. É uma figura que a sociedade admira muitíssimo e eu entendo que ele seja um grande nome nesse momento que o Brasil precisa de uma repercussão internacional de que seu dirigente é um exemplo de moralidade e de probidade. E ele saberá montar uma equipe à altura do seu próprio conhecimento, na medida em que ele foi um excelente presidente do Supremo Tribunal Federal, goza da confiança legítima do povo e tem grandes companheiros que podem formar uma belíssima equipe para administrar o Brasil. Entendo até que basta o ministro Joaquim Barbosa se lançar porque várias personalidades que têm qualidade técnica para administrar o Brasil vão se apresentar para oferecer seus serviços em prol do Brasil.

Barbosa conversando com FuxDireito de imagemGERVÁSIO BAPTISTA/SCO/STF
Image captionFux diz que Joaquim Barbosa seria 'grande nome' para Presidência da República

BBC Brasil - Independentemente do resultado eleitoral em 2018, está claro que o Brasil vive um clima de divisão muito grande. E existe um grupo que pede claramente a volta da ditadura militar. Há riscos de retrocessos para a democracia?
Fux - Acho que a democracia no Brasil hoje está absolutamente sedimentada. Não há possibilidade de reversão. (...) A figura do candidato Bolsonaro significa uma reação a esse ambiente político nocivo que estamos assistindo, mas isso não significa necessariamente que nós vamos proceder a uma regressão do Estado Democrático de Direito que alcançamos. Quem vier vai ter que se adaptar a esses novos princípios, a esse ideário.
BBC Brasil - Lula e Bolsonaro já estão claramente em campanha. Lula começou a fazer caravanas e Bolsonaro divulgou vídeos. O que o senhor acha desse clima de campanha antecipada?
Fux - A legislação em relação à propaganda é muito flexibilizada. Ela exige que, para caracterizar propaganda antecipada, haja pedido explícito de voto. O que é realmente um absurdo. O TSE não vai apreciar essas questões da propaganda estritamente apegada à letra da lei. Quando nós verificarmos que a propaganda é antecipada apesar de qualquer dissimulação, nós vamos punir conforme a lei nos autoriza. O TSE não vai ser leniente com qualquer ilícito eleitoral.
BBC Brasil- Na primeira instância, mais de 100 réus na Lava Jato foram condenados até agora. No Supremo, o ritmo é muito diferente. Até agora não houve condenação. Por que essa discrepância? Não dá a ideia de que o réu se beneficia ou, no mínimo, ganha tempo quando é julgado pelo Supremo?
Fux- Há uma diferença importante, as varas de primeira instância só fazem isso. São varas especializadas em crimes de organizações criminosas. O Supremo tem jurisdição sobre todo o território nacional e julgamentos com causas em que há questões de família, direito penal, direito civil. O Supremo tem 70 mil processos para julgar. Uma vara de crime organizado profere 30 sentenças por mês no máximo. Cada ministro do tem que proferir no mínimo mil decisões por mês. De qualquer maneira, em razão da competência do Supremo, que inclusive vai ser revista em relação ao foro privilegiado, posso assegurar que nenhum desses casos da Lava Jato prescreverá.
BBC Brasil - É o momento de rever o foro privilegiado?
Fux - É o momento de rever o foro privilegiado, porque os processos sobem e descem conforme o cargo exercido pelo acusado. Então, se ele comete uma infração comum e se torna deputado o processo sobe. Depois ele perde o mandato e o processo desce. Depois ele volta a concorrer e o processo sobe. Esse sobe e desce acaba gerando prescrição e sensação de impunidade. Essa regra constitucional certamente será interpretada - já tem quase que a maioria de votos - no sentido de que só ficam no Supremo os casos daqueles candidatos que estejam no exercício do mandato e cujo delito tenha sido praticado durante o mandato.
BBC Brasil - Nos últimos anos, questões sensíveis no contexto brasileiro, como aborto de fetos anencéfalos e casamento homoafetivo, foram decididas pelo Supremo e não pelo Congresso. Aliás, tem sido assim em vários países da América Latina. É chegado também o momento de o STF dar a palavra final sobre descriminalização do aborto?
Fux - Eu tenho a impressão de que algumas questões são judicializadas porque o Parlamento não quer pagar o preço social de tomar a decisão adequada. Mas, na verdade, o lugar próprio de decidir sobre a descriminalização do aborto é o Parlamento e não o Supremo Tribunal Federal. O Parlamento tem mais expertise para essa solução do que o Supremo, principalmente porque há um desacordo moral razoável na sociedade. Quem representa a sociedade hoje, no âmbito dos poderes, é o Legislativo, que é a casa do povo.
BBC Brasil - O que a gente vê no Congresso é um movimento oposto. Está em discussão um projeto para proibir o aborto em todos os casos, colocando na Constituição que a vida deve ser protegida desde a concepção. Como fazer com essa dissonância?
Fux - Entendo que é um problema de saúde pública que a sociedade tem que decidir por meio de seus representantes. Agora, o Judiciário pode vir a ser provocado sobre essa questão. E então, num momento oportuno, vou me manifestar.
BBC Brasil- E a legalização do consumo e comércio de drogas. O senhor tem posição sobre isso?
Fux - Essa é uma questão que o Supremo está prestes a decidir. Já tem uma sombra de que essa matéria vai ser chancelada pelo Supremo. Pelo menos a descriminalização do uso da maconha o Supremo vai chancelar. A questão da comercialização também é importante, porque, segundo cientistas políticos e sociólogos afirmam, isso seria um golpe certeiro contra o tráfico, que é uma das tragédias da nossa sociedade. Por enquanto estamos debatendo a descriminalização do uso e posteriormente vamos debater a possibilidade do comércio regular da droga, assim como acontece no Uruguai e em outros países.
BBC Brasil - O governo fez mudanças nas regras trabalhistas e a propõe uma reforma na Previdência. Enquanto isso, alguns juízes recebem supersalários e há uma gama de penduricalhos à remuneração, com auxílio-moradia. O Judiciário não deveria dar sua contribruição ao esforço de ajuste fiscal?
Fux - Eu acho que o Judiciário tem que dar a sua cota de sacrifício nesse momento. No presente momento, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) está fazendo uma aferição desses supersalários, para impor cortes, ressalvando as hipóteses em que a própria lei orgânica da magistratura estabelece indenização. A juíza gestante tem que ter o mesmo direito das servidoras públicas gestantes. Os juízes têm que receber a mesma coisa que os servidores. Juízes têm férias... O exemplo do Judiciário não pode ser um exemplo que os desigualem em relação aos servidores públicos, porque eles (juízes) também prestam serviços.
BBC Brasil - Mas e os penduricalhos, que acabam engordando os salários?
Fux - Essas penduricalhos são absolutamente inaceitáveis. Vai chegar o momento em que o CNJ vai cortar totalmente esses penduricalhos. Mas às vezes são transmitidos como penduricalhos indenizações a que os juízes fazem jus há bastante tempo e que são pagas parceladamente.
BBC Brasil - Convencionou-se que os juízes só falam nos autos. Hoje, no entanto, as pessoas sabem o que é o Supremo, quem são os ministros e há transmissão em tempo real dos julgamentos. Se por um lado, há mais transparência, por outro lado, os magistrados estão submetidos a mais pressões, o que, eventualmente, prejudica a isenção das decisões?
Fux- O Brasil é o único país que tem TV Justiça. Nenhum país do mundo transmite julgamento. Agora, o Supremo decide questões subjetivas. São processos de pessoas físicas e jurídicas. E decide questões objetivas que envolvem questões morais, de razões públicas, como da descriminalização das drogas e aborto, o Judiciário deve ouvir a população. Nessas questões, não pode ser dissonante daquilo que o povo espera.

Fux em entrevista à BBC Brasil
Image captionEm entrevista exclusiva à BBC Brasil, ministro também defendeu enfaticamente candidatura de Joaquim Barbosa à presidência e disse que tendência no STF é descriminalizar porte de maconha

BBC Brasil - Percebe-se uma divisão no Supremo. Recentemente, houve bate-boca entre os ministros Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes. Esses episódios não prejudicam a imagem do Supremo?
Fux- O ideal seria a Corte sempre dialogar antes de iniciar um julgamento. O Supremo é composto por homens que vem de diferentes lugares do Brasil, com formações ideológicas diferentes. A divisão ideológica nos julgamentos demonstra que cada um pretende fazer o que entende de melhor. As desavenças são naturais, debaixo da toga bate o coração de um homem. Cada um tem suas sensações e motivações.
BBC Brasil - Mas como o senhor vê o modo como essas divergências estão sendo manifestadas, de forma agressiva, inclusive com ministros questionando a ética e a moral dos colegas?
Fux - Essas manifestações são tão esporádicas e extraordinárias que chamam a atenção, mas elas não são corriqueiras e usuais. Cada ministro absorve para si a responsabilidade de seus excessos.
Professor Edgar Bom Jardim - PE